quinta-feira, maio 03, 2007

Quinta D'Amares 2006

Voltando às iniciativas lançadas pela nossa comunidade de eno-blogs, a Prova à Quinta desta vez comandada pelo Pingus Vinicus do Blog Pingas No Copo consistia em provar um branco português monocasta. A minha escolha cai talvez na casta mais "barata". Será? Falo-vos do Loureiro que muitas vezes é trabalhado sozinho. Junto a Póvoa de Lanhoso, em Amares fica a Quinta de Amares.




Com 11%Vol. e uma cor muito ligeira, amarela com laivos esverdeados.
Nariz alegre, vivo, fresco, cheio de notas citrinas, limão, banana, maçã reineta e algum aroma típico a louro. O lado vegetal aparece aqui ligeiro bem casado com um aroma mais adocicado, lembrando rebuçado.

Na boca, pleno de juventude, acidez moderada para este tipo de casta, deixando o vinho ter algum corpo "à vista", com toques de fruto citrino, tropical. Algum açucar residual torna-o guloso e muito muito fácil de beber. Com 11%Vol, pode chegar a ser perigoso, pois a garrafa vai num instante. Pico muito muito ligeiro, num final ligeiramente doce mas sobretudo equilibrado.
Ao preço de venda é uma excelente RQP. Um bom Loureiro, a um passo dos melhores que temos.

Nota 15
Preço 2 euros

segunda-feira, abril 30, 2007

Grou 2004

Voltemos ao Alentejo na zona do Cabeção...
Já há algum tempo, provei o Grou 2 2004. Era um vinho irreverente no estilo (só Inox) e no carácter. Tenho agora para apresentar o Grou 2004. Topo de gama da Soc. Agr. Vale da Joana e é, como tenho dito por aí, um dos grandes vinhos alentejanos e que me enche por completo as medidas.

Predominante o Alicante Bouschet (70%), Trincadeira (12%), Aragonês (12%) e Touriga Nacional (6%), o vinho estagiou depois em barricas novas de Carvalho Francês durante 8 meses.

Com 14,5%Vol apresenta uma grande concentração na brilhante cor granada.
No nariz, muito austero, cheio de notas silvestres, com uma frescura impressionante, com muita menta e eucalipto, num perfil sério e com grande complexidade. A madeira está aqui plenamente integrada, com algum fumo, tabaco, especiarias em conjunto. Um aroma fino e muito refrescante, que foge um pouco aos padrões mais quentes da planície alentejana.

Na boca, com grande estrutura, a classe volta a imperar, com uma entrada acetinada, taninos de luxo, muito fruto silvestre, perfume floral, toque mentolado refrescante, novamente com a madeira bem casada, com notas de frutos secos e uma grande profundidade. A acidez é surpreendente, com um volume de boca geométricamente perfeito, conseguindo preencher todas as arestas. Forte, complexo, e fresco, num final longo, com chocolate e notas da madeira de grande nível.
Um belo vinho, viciante (sou suspeito, pois gostei mesmo muito dele), com um perfil muito próprio, embora seja muito concentrado não é uma bomba de fruta, o que lhe traz o tal apelido de vinho complexo. Potente e audaz, capaz quem sabe de se evoluir ainda mais em garrafa.
Ah, o enólogo é o Anselmo Mendes, que faz pela primeira vez um Alentejano. E que bem que o fez!

Nota 18
Produção 8.000 garrafas

terça-feira, abril 24, 2007

Um ano

Pois é... Já faz um ano desde o 1º post no Vinho da Casa. Um para mim, trinta e três para a liberdade. Não faço a mínima ideia se este blog teria lugar nos tempos escuros e deprimentes da nossa ditadura, pois já nasci em plena liberdade. Nunca experimentei a ditadura, mas também não faço tenções para isso.

Ao longo deste ano muito aprendi, muito li, muito ouvi, e claro, muito provei. Tive oportunidade de conhecer alguns produtores, participar em muitas provas, participar em eventos vínicos conhecer outros malucos como eu que dedicam um blog ao Vinho e conhecer sobretudo muitos enófilos perdidos na maré...
Foi um ano muito intenso, e que me obrigou a levar isto com mais seriedade do que a que eu estava à espera. Sou um puro amador, mas sinto que este espaço que criei me abriu oportunidades para melhor aprender e para me esforçar por isso, pois mais não seja com um blog estou exposto, logo aberto a críticas. Durante estes 365 dias tive cerca de 31.500 visitas e quase 19.000 visitantes. Pode ser pouco, eu sei, mas para mim é um número que me assombra. São cerca de 85 visitas diárias ao meu blog. A todos eles e por todos eles o muito obrigado por terem feito com que este blog tivesse andado para a frente, pois para aqueles que me conhecem melhor sabem que só funciono sobre pressão. Continuem-me a pressionar para ver se aprendo um pouco mais a cada dia que passa.

Como espaço pessoal de crítica e prova de vinhos ( é assim que defino este blog), nada melhor que brindar o 1º aniversário com dois excelentes vinhos. Um deles, feito com lotes de colheitas ainda no tempo do nosso (infelizmente) imortal ditador. Falo-vos dum Porto 40 anos de grande nível, engarrafado em 2000 para a celebração do milénio. O outro, um dos grandes vintages do século passado, pois ainda agora nesta edição de abril da Revista de Vinhos foi a estrela da prova no painel de vintages da mítica(?) colheita de 1994. Curiosamente este dois vinhos são a 99º e a 100º nota de prova publicada. Espero aumentar o número de notas de prova, o que vai ser difícil, pois estou a terminar a minha licenciatura e a vida de estudante é difícil. Prometo no entanto, que não baixarei de duas notas de prova por semana.


Um grande bem haja para todos os que seguem o meu projecto, e viva a liberdade!


Sandeman 40 anos
Coloração ambar com reflexos castanho-avermelhados.
No nariz, mostra-se exuberante e hiper-complexo, repletos de aromas profundos com uma limpeza enorme, madeira molhada, funcho, canela,charuto, frutos secos em grande abundância, amêndoas, nozes, notas licorosas. Tudo muito equilibrado e com um nível impressionante, um vinho que nos prende ao copo a nos deixa preplexo a cheirá-lo tentando perceber como é possível. São poucos os 40 anos que provei, mas este aroma é inexplicável e senhor de uma classe única.

Na boca, extremamente melado, com uma acidez muito equilibrada com o açucar, trazendo uma sensação de harmonia ímpar, suave e fresco, cheio de complexidade, deixando notas de geleia e muita especiaria, num final ascendente e interminável. O palato fica inundado de aromas e de seda seguramente bem mais de um minuto.
Um vinho único e que provoca sensações inexplicáveis. Por muito que tente, não consigo escrever o que senti.
Nota 19

Graham's Vintage 1994
De cor rubi, ainda com uma boa densidade, com ligeiros reflexos vermelho escuro no anel.
No nariz, sizudo e sem se querer mostrar, muito austero e senhor de si, a pouco e pouco mostra uma extrema complexidade aromática, com fruta preta muito madura, erva seca, especiarias e um perfil vegetal de fundo ao lado de um traço balsâmico e floral. Mostra-se claramente narcisista e irritado por o termos acordado.

Na boca, a mesma sensação se verifica, com extrema potência e estrutura, carregado de frutos pretos, num perfil não muito guloso, algo seco, com taninos de grande classe e cheios de potencial, mostrando que ainda está aqui para as curvas e disposto a proporcionar grandes alegrias a quem o provar no seu auge. Embora não tenha obviamente capacidade para prever quando estará no seu apogeu, esta altura não é certamente e ainda não passou. Final longo, fresco, com clara predominância no chocolate preto misturado com fruto preto e ligeira especiaria.
Deu-me muito prazer em prová-lo, mas deu sobretudo para ter noção do que é um Vintage "fechado para obras". Segundo diz a Revista de Vinhos, e ainda bem que o diz, é um Vintage para guardar.
Nota 18,5

As notas são meramente indicativas do prazer que me deu, e daquilo que eu acho que valem, ainda assim não tenho qualquer pudor em assumir o que escrevo ( viva a liberdade de expressão camaradas)... Também é verdade que não tenho "estaleca" para avaliar Vintages ou Tawny's deste nível, já nos tintos e brancos é o que é. Talvez para o ano, ou para o próximo quem sabe!

Obrigado a todos vós mais uma vez...

25 de Abril Sempre
Como diz um dos meus compositores portugueses preferidos:
APRENDE A NADAR COMPANHEIRO...
QUE A MARÉ SE VAI LEVANTAR...
QUE A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR AQUI...

segunda-feira, abril 23, 2007

Odisseia Touriga Nacional 2004

Jean-Hugues Gros, enólogo francês, que durante muitos anos deu apoio enológico a várias marcas de vinhos do Douro. Em 2004, decidiu arrancar com um projecto seu, trabalhando as vinhas do Vale do Távora, e lançando para o mercado a marca Odisseia. Conseguiu encher 8.000 garrafas nesse ano, mas foi na casta Touriga Nacional que Jean-Hugues se fixou e fez um mono-varietal de grande nível, um extreme que deu apenas para encher 2.000 garrrafas.
A Touriga Nacional foi feita em tradicionais lagares de granito, onde depois passou para o Carvalho Francês, sendo apenas 40% de barricas novas.

Com 14%Vol. o vinho mostra uma coloração rubi muito densa, quase opaca e com grande concentração.

No nariz, o aroma é impressionante, austero e muito firme, com muitas notas florais típicas da TN, violetas, um ligeiro toque químico e uma clara presença de erva seca e de vegetação duriense, lembrando uma tarde quente de início de verão. Cheio de complexidade, o rosmaninho e a esteva misturam-se com a fruta de compota, toques ligeiros da barrica, com uma tosta ligeira e notas de chocolate, tudo muito extraído e muito vivo.

Na boca, o nome Odisseia começa-se a entender, tudo aqui é bruto, tudo é violento, um vinho pastoso, de grande concentração, estilo after-eight, com uma acidez moderada que lhe garante o suporte para tal arcaboiço, tornando-o num vinho fresco, ainda que carnudo. Os taninos são de grande qualidade, ainda que ligeiramente secos, mostrando que precisa ainda de calma para ser bebido. A madeira está muito bem integrada, com café e tabaco seco, com um final muito compotado, de grande comprimento e cheio de complexidade. A harmonia de conjunto consegue fazer com que um vinho bruto se torne elegante e atraente.

Bebê-lo é uma autêntica Odisseia, pois a força e a super-concentração que apresenta não é para qualquer um. Força bruta elegante, assim o gostei de definir. Um belo exemplar da Touriga Nacional a beber já para quem for aventureiro. A um preço excelente. Belo vinho. Se os gregos soubessem o que por cá se faz...

Nota 18
Preço 22 euros
Produção 2.000 garrafas

domingo, abril 22, 2007

LBV 2001 e Colheita 1994 Niepoort

Mais uma incursão na casa Niepoort, desta vez para aquilo que a tornou mundialmente conhecida, os Porto's, principalmente os Colheita, pois esta casa no séc XIX e XX era mais premiada pelos Tawny's datados do que pelos Vintage ( já para não falar nos Garrafeira, aqueles demijons de quase 10 litros que ficam esquecidos ali nas caves da íngreme Rua Serpa Pinto).

Começando pelo Colheita 1994, é um Tawny de uma só colheita, oriundo das vinhas do Vale do Pinhão e do Ferrão, com um estágio mínimo de 7 anos em pequenos barris velhos. Este Colheita foi engarrafado em 2005, tendo portanto cerca de 11 anos em contacto com a madeira.

Colheita 1994
Como manda a Lei tem 20%Vol.
A coloração essa é ambâr ainda com laivos avermelhados e ligeiro rebordo alaranjado.

No nariz, o aroma é todo ele superlativo, com nuances de frutos secos, com especial destaque para a amêndoa, muita canela, figos secos, bolo e geleia. Muito equilibrado e profundo, o perfume não cansa, pois a presença da madeira está em perfeita harmonia com a frescura da casca de laranja.

Na boca, com uma entrada típica de um Tawny, fresco, gorduroso e com um aveludado. Largo e harmonioso, pleno de elegância com o açucar residual a não cansar, com uma acidez fantástica, a mostrar que está em perfeitas condições quer de ser bebido, quer de ficar em garrafa a ganhar a tal complexidade de "garrafa". (Perdoem-me o pleonasmo) O final de boca é longo, melado, especiado e com notas de citrinos.
Nota 17


Mudando claramente de estilo, vamos para o irmão mais novo do Vintage, onde o estágio é feito em barricas grandes, para o vinho não ter tanto contacto com a madeira, e engarrafado 5 anos depois ( 2006). As castas são misturadas de vinhas com mais de 70 anos da zona do Vale do Pinhão, do Ferrão e da Vinha da Pisca.

LBV 2001
Também com 20%Vol. apresenta uma cor rubi de grande concentração.

No nariz, o estilo austero e jovem é impossível de se esconder, com muito nervo e até algo fechado, cheio de notas químicas, violetas, muito fruto, amoras, cerejas, ameixa preta. Um aroma claramente cheio de força mas já muito equilibrado, onde raspas de chocolate preto se fundem com pimentas.

Na boca, rico e pastoso, ( o estilo unfiltered talvez venha aqui ao de cima) com taninos bem aguerridos, com vontade de explodir na boca. O perfil "bruto" é plenamente contrabalançado com a finesse da fruta preta, com a riqueza do chocolate preto e com uma boa acidez que traz elegância e frescura. O final é uma vez mais muito dinâmico, longo e picante, cheio de notas especiadas.
Nota 16,5


Dois vinhos diferentes, quer no conceito quer no efeito. O Colheita é um vinho delicado, muito harmonioso e que quase que nos puxa para ficarmos apenas a cheirá-lo, pois é perfeitamente possível andar à pesca de aromas aqui e ali. O LBV é um estilo muito austero e com vontade de dar asas à liberdade culinária, podendo mesmo servir de fiel companheiro para muitos pratos, como sugere a própria Niepoort com um steak au poivre.

quinta-feira, abril 19, 2007

Gravato Palhete 2004

"Passados muitos anos, eis que surge de novo o "Vinho da Mêda", que foi outrora tão cobiçado no Porto e seus arredores. Este vinho era sujeito a um grande controle devido às tentativas de contrafacção que acabaram por surgir e, de certo modo acabaram com a imagem que tinha o "Vinho da Mêda".
Com o decréscimo da procura, os vitivinicultores da Mêda replantaram as suas vinhas com uvas mais rentáveis como são as Tourigas Nacional e Franca, ou Tinta Roriz o que levou ao total desaparecimento do "Vinho da Mêda".
Hoje em dia poucos são os que se lembram do Vinho da Mêda também conhecido como Palhete da Mêda ou Palheto da Mêda, mas os que se lembram recordam com saudade o tão afamado vinho e anseiam por uma oportunidade para partir numa viagem em senda dos sabores do passado. Os mais jovens, que em grande parte desconhecem o vinho aproveitam e agradecem a possibilidade que lhes é dada para provar um vinho diferente."

Pois bem, é a primeira vez que provo um palhete. É um vinho feito em inox, com uvas de castas tintas e uma percentagem de uvas de castas brancas. Este Gravato da Beira Interior tem Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Rufete e Rabigato, tudo de vinhas com mais de 50 anos.

Com 13,5%Vol apresenta uma brilhante e delgada cor rubi.
Provado a 11ºC deixando o vinho evoluir no copo.
No nariz, cativante e bastante aromático, a fruta vermelha, ameixas, morangos, cerejas, estão em sintonia com um lado vegetal e mentolado muito fresco. Algumas notas de borracha e de algumas flores trazem um nariz equilibrado e correcto.

Na boca, algo directo a uma temperatura baixa, com a acidez e a frescura ( talvez do Rabigato) a marcarem a prova, com fruta muito fresca num toque mais rústico e lembrando engaço, num final com boa duração ainda que bastante simples. Com o evoluir da temperatura, as notas florais aparecem, assim como algum químico, o vinho mostra-se mais estruturado, perfumado mas sem pesar pois a acidez não arreda pé, nunca caíndo em grandes doçuras.
Um vinho sui generis pela sua essência, algo démodé até, ainda que muito interessante, pois estar a apreciá-lo a várias temperaturas pode ser um bom exercício didático.

Nota 14
Preço 5 euros
Produção 6700 garrafas

quarta-feira, abril 18, 2007

Luis Pato Espumante Maria Gomes

A Bairrada é das zonas portuguesas com mais tradição no que toca à produção de vinhos espumantizados.
Luis Pato fez este espumante apenas com a casta Maria Gomes oriunda de solos argilo arenosos, através do método champanhês com estágio apenas em inox.

O espumante apresenta uma boa cor amarela citrina muito alegre com bolha viva e correcta.
No nariz, muito fresco, citrino ( ananás, limão) e com aromas a fósforo, pedra, e alguma bolacha o que lhe confere alguma elegância aromática. A frescura mineral e as notas limonadas são as que mais imperam no aroma, mostrando ser um espumante alegre de fácil acesso.

Na boca a bolha tem uma boa suavidade, forrando ligeiramente o palato, ainda que a acidez seja bem altae faça aqui um contrapeso, tornando o vinho muito equilibrado. De ligeira untuosidade, impondo-se outra vez as notas citrinas, com alguma tosta e um ligeiro sabor a medicamento( que já vai sendo característico quando provo a casta Maria Gomes). Final mineral e frutado, ligeiramente cremoso e de bom nível.
Um espumante claramente apetecível e feito para iniciar uma refeição num dia de calor, com entradas frias.

Nota 15
Preço 6 euros

segunda-feira, abril 16, 2007

Quinta do Carqueijal 2004

Em Poiares, na região Duriense, fica a Sociedade Agrícola Quinta Seara D'Ordens, que tem um portfolio de vinhos considerável, desde os Porto, aos vinhos tranquilos, com cerca de 15 referências. Os Quinta do Carqueijal ( branco, tinto e rosé) situam-se como entradas de gama, a preços simpáticos.

Provei o tinto da colheita de 2004, que é feito com Touriga Franca, Tinta Barroca e Tinta Roriz, com um estágio de 4 meses em Carvalho Francês.

Com 13%Vol apresenta uma cor granada jovem de média concentração.
No nariz, o primeiro impacto é de alguma rusticidade, com notas de couro, animal, com muito vegetal, num tom vivo e alegre. Fresco e frutado, simples mas equilibrado, as notas de fruta vermelha, morango, maça vermelha, cassis e algum chocolate estão muito bem integradas num toque de madeira aqui e ali.
É de notar o perfil clássico e fresco que este produtor aposta nos seus vinhos, já o Seara d'Ordens 2003 apresentava este estilo, mas mais exuberante e complexo.

Na boca de perfil delgado, com boa acidez, com um corpo ligeiro, que nos dá uma prova correcta, com grande frescura, muita fruta vermelha, agum perfume floral, onde os taninos estão bem redondos, trazendo-nos ao palato novamente o perfil clássico, quase com notas licoradas, num final honesto mas capaz, com as notas mais secas da madeira a trazerem alguma profundidade.
Um vinho bem feito, claramente de entrada de gama, mas muito bem para o preço. De realçar o perfil seco do vinho, pois nesta classe de preços é muito comum a presença de açucar residual, apenas para agradar o consumidor guloso.

Nota 15
Preço 3,5 euros
Produção 20.000 garrafas

terça-feira, abril 10, 2007

1ª Prova Cega - Tintos até 10 euros

Pela primeira vez, aventurei-me em casa a provar vários vinhos em prova cega.
Juntei dois vinhos Alentejanos e dois vinhos do Douro, todos a preços abaixo dos 10 euros.
Foi este o único factor de comparação, pois os anos são diferentes.
Diverti-me bastante, os vinhos puxam por nós e os resultados foram curiosos. Já não é a primeira vez que provo em prova cega, mas com o moleskine e com a caneta na mão é a primeira.
Penso que daqui em diante, vou por vezes abrir 3 ou 4 garrafas e recorrer a este estilo de prova.
Apesar de saber quais os vinhos em prova, nunca os tinha provado anteriormente.
Os vinhos foram os seguintes:
Dona Maria 2004
Fagote 2004
Monte da Peceguina 2005
Quinta Seara D'Ordens 2003


Aqui ficam as minhas notas:

Dona Maria 2004
Tinto com 14,5%Vol. vindo das vinhas de Estremoz do produtor Júlio Tassara de Bastos com Aragonês (50%), Cabernet Sauvignon ( 20%), Alicante Bouschet (15%) e Syrah (15%), estagiados 6 meses em Carvalho Francês e Americano.

Cor jovem, granada e de média concentração.
No nariz, cativante, bastante fresco e mentolado, com uma grande dose floral. A envolvência tostada da madeira está muito bem integrada, com ligeiro fumado, onde a fruta, nada madura, lembras bagas silvestres juntamente com notas de chá verde e muitas especiarias. Um aroma muito sui generis, afinado e num fundo balsâmico.
Na boca, o vinho apesar de ter bom volume, ele é todo apoiado numa acidez elevada, que lhe traz grande frescura, muito perfumado, sempre com toques balsâmicos e achocolatados aqui e ali, com os taninos bem afinados, num final médio-longo, especiado e com notas de tabaco.
Um vinho muito bem feito, que dá prazer e que pede para ser bebido, quer no cativante aroma, quer no fresco e afinado paladar. Um pouco mais de complexidade e persistência e estava aqui um senhor vinho.
Nota 16
Preço 8 euros


Fagote 2004
Tinto com 13%Vol. da Companhia de Vinhos do Douro, nascido nos solos xistosos do Douro Superior, com Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Franca, que estagiam 12 meses em Carvalho Francês.

Com uma cor rubi jovem e de boa concentração.
No nariz, ainda algo fechado, com uma certa dose de mineralidade, que talvez o desmascare logo, com fruta fresca, ameixa, morangos e groselhas (xarope). Equilibrado e com alguma complexidade, as notas florais estão cá, notando-se também um pouco de borracha e chocolate amargo. A madeira está perfeitamente integrada no vinho, sem nunca se sobrepôr, com uma tosta ligeira a envolver. Um nariz fresco, elegante e muito mineral, fora das modas de bombas-fruta.
Na boca, de volume mediano, com taninos ainda algo secos e trazerem alguma austeridade, de acidez bem vincada, fresco e acima de tudo elegante. Fruto fresco muito discreto, num tom ligeiramente vegetal, com algumas notas da madeira, chocolate preto e algum fumado. Final de boca médio, com notas de especiarias e mineral.
Um vinho muito equilibrado, sem grandes exuberâncias, discreto e elegante. Mostra claramente que se pode apreciar bons vinhos sem exageros frutados.
Nota 16
Preço 8 euros

Monte da Peceguina 2005
Tinto com 14%Vol. das terras solarengas a sul de Beja da Herdade da Malhadinha Nova, com 40% de Aragonês, 20% de Alicante Bouschet, 15% de Touriga Nacional, e 10% de Alfrocheiro, estagiado em barricas novas de Carvalho Francês e Americano durante 6 meses.

Opaco, retinto e uma brilhante cor rubi.
No nariz, o aroma é intenso e nada envergonhado, com fruta preta e vermelha muito madura e muito densa( amoras, framboesas, cerejas...) quase que a saltar do copo de cada vez que o rodamos, juntamente com notas achocolatadas misturadas com tabaco. Um nariz quente e torrado, com a barrica bem presente , mas sem cair em aromas enjoativos, pois o floral e um leve vegetal(erva seca) trazem alguma frescura e complexidade aromática.
Na boca, entra denso e com vontade de mostrar toda a força, com a fruta uma vez mais a marcar o ponto, estilo compota, acidez suficiente, algum fumo, com a madeira ainda bem marcada no vinho. Os taninos estão muito bem afinados, com uma prova de boca muito envolvente, encorpada e acima de tudo equilibrada, com um final de média duração e algo doce e especiado. Se o final tivesse mais alguma complexidade estávamos perante um vinho muito bom. Ainda assim é um belo vinho. Mas sabendo que estamos abaixo dos 10 euros, não se pode pedir mais.
Nota 16,5
Preço 9 euros

Quinta Seara d'Ordens Col. Selec. 2003
Tinto com 13,5%Vol., vindo da zona de Poiares, da Soc. Agr. Quinta Seara D'Ordens, que produz também Vinho do Porto, e com um postfólio enorme. Feito com 40% de Touriga Franca, 30% de Touriga Nacional e de Tinta Roriz, com um estágio de 10 meses em Carvalho Francês e um estágio em garrafa também de 10 meses.

Cor rubi de média concentração.
No nariz o primeiro impacto é de um forte pendor vegetal, muita erva seca, com algum toque animal ( que ao longo da prova desaparece). A fruta está presente ainda que algo tímida, com fruta vermelha não muito madura misturada. O classicismo parece imperar no aroma, onde se descobrem algumas notas de couro misturadas com caramelo, onde a madeira aparece com notas mais modernas de baunilha, cacau e algum fumo.
Na boca, de corpo mediano, com acidez também mediana e equilibrada, onde os taninos estão presentes mas não perturbam. Boa profundidade, perfumado e com a madeira a envolver um paladar elegante, algo rústico, apoiado no vegetal, no fruto vermelho, com um final longo, com notas de fumo e cacau.
Um vinho clássico, bem feito e que consegue ser identificado com facilidade perante os outros 3 vinhos em prova, pela sua personalidade vincada. Um vinho com carácter e de certeza que muito capaz de ligar com pratos tradicionais ( enchidos, feijoadas, cozidos...).
Nota 15,5
Preço 6 euros

Foi uma prova interessante, onde o Dona Maria me surpreendeu, pois a boa acidez que tem nunca me fez pensar que fosse do Alentejo, e onde o Seara D'Ordens também se mostrou claramente diferente dos outros 3. Ao preço do Seara é uma excelente aposta para quem procura vinhos mais clássicos.

Apeteceu-me eleger um prémio a cada um:

Prémio mais exuberante - Monte da Peceguina
Prémio mais afinado - Fagote
Prémio mais clássico - Seara d'Ordens
Prémio mais nómada - Dona Maria

terça-feira, abril 03, 2007

Poeira 2004

"O Poeira é um vinho feito a partir de vinhas muito velhas, com castas diferentes e uvas e qualidade variável. Assim, a primeira grande preocupação é a escolha das uvas cacho a cacho e mesmo bago a bago para que tudo vá para o lagar em óptimas condições.
Numa quinta com exposição a Norte, onde se consegue um amadurecimento das uvas muito mais lento, preservando melhor os aromas, os sabores e a acidez."

É isto que Jorge Moreira nos diz sobre o Poeira no seu site. E é este o "segredo" que fez com que o vinho desde a sua primeira edição apaixonasse tudo e todos, esgotando rapidamente e claro, com uma qualidade inolvidável.
Em 2004, um ano muito equilibrado no Douro, o Poeira 2004 vem com 14,5%Vol e com um estágio de cerca de 16 meses em barricas novas de Carvalho Francês. As castas são as tradicionais do Douro misturadas nas vinhas velhas com mais de 60 anos, e vinha nova com Tinta Roriz, Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Barroca

No nariz, o vinho mostra-se misterioso, fechado, soltando apenas uns aromas florais e alguma frescura. Com a decantação prévia, começa a mostrar nos aromas uma digna elegância e de grande complexidade, com um mineralidade incrível, vegetação duriense, com aromas de rosmaninho, urze, violetas, frutos pretos de baga e alguns frutos vermelhos, toque químico, tudo envolvido numa barrica de grande nível e muito bem integrada, com alguma especiaria e cera de móvel.

Na boca tudo é harmonia, o vinho entra fresco com uma delicadeza subtil, afinadíssimo e aprumado. Todas as suas valências estão em cada sítio como que alinhadas. Impressionante a forma como o vinho se comporta, com taninos finíssimos e de grande classe, acidez elevada, frescura ímpar, profundidade espectacular. Apesar de ter uma grande estrutura e concentração, a sua excelente acidez e frescura trazem um vinho fino e elegante com notas de frutos vermelhos, grafite e muitas especiarias. O final é rico, complexo, longo e outra vez fresco.

Frescura e aprumo são duas palavras que assentam na perfeição. É também assombrante a forma como o vinho evolui no copo...algo estilo pilhas duracell ( e dura e dura e dura). Digno dos grandes vinhos, este vinho durou cerca de 4 horas no meu copo e a cada meia hora estava melhor, conseguindo com o tempo mostrar um nariz mais exuberante, com algum chocolate amargo, embora a frescura nunca se tenha perdido. Acreditem ou não mas guardei um pouco na garrafa e no dia a seguir estava dislumbrante ainda.
Grande vinho
e que merece toda a atenção que possamos ter ao apreciá-lo. Não sou a Dona Maya, mas de certeza que este vinho daqui a uns anos será uma obra de arte. Para já ficamos à espera que ele perca a timidez e que ganhe ainda mais complexidade( mais ainda?).

Poeira é coisa que este vinho não tem.
Nota 18
Produção 49 barricas
Preço 25 euros

quinta-feira, março 29, 2007

Alvarinhos

A casta Alvarinho é provavelmente a grande casta branca cultivada em Portugal e que faz vinhos extremes de bom nível e que tem bom potencial de envelhecimento.
Em prova esteve um Soalheiro de 2002, e dois de 2004, Casa do Capitão-Mor e Quintas de Melgaço. Deixo aqui uns breves apontamentos.

  • Soalheiro 2002 Concentrado na cor amarelo-limão, com muitas notas florais, citrinos, mineral e com um nariz elegante e bastante atractivo, com grande classe e nenhuma timidez. Na boca, a acidez está ainda para durar, com um forte carácter mineral, muito fresco e com um corpo harmonioso, permitindo uma excelente prova de boca com fruta, maçã, kiwi e uns toques vegetais. Final harmonioso e de grande persistência. Excelente vinho e cheio de força e ainda com juventude. Os 5 anos que passaram por cima parece que só lhe deram qualidade. Um dos melhores Soalheiros que já provei. Nota 17

  • Casa do Capitão-Mor 2004 Bem na cor amarelo palha, com ligeiros toques dourados e uma lágrima muito pouco comum para um alvarinho feito só em inox. Perfumado no aroma, com muita fruta, pêssego, melão, banana e algum mel. Aroma bem mais "quente" que o Soalheiro, com ligeira mineralidade, mas com um carácter frutado muito mais presente. Com grande untuosidade na boca, volumoso e harmonioso, com aromas de frutos tropicais, algum exotismo, acidez mediana, deixando ser um vinho um pouco mais pesado, mas que não desequilibra, num final de bom nível, comprido e marcado pelas frutas tropicais. Nota 16


  • Quintas de Melgaço 2004 Com cor amarelo palha de média concentração, o aroma é marcado por notas vegetais, citrinos e alguma casca de laranja num fundo fumado e elegante. A mineralidade está também muito presente, o que confere um carácter fresco e vincado no nariz. A boca, com algum volume, untuoso e onde a acidez está ainda bem presnte, com fruta citrina, tropical e com grande harmonia. Com um final marcado pela mineralidade e algum mel, parece estar num óptimo ponto para ser bebido, pois está muito equilibrado. Nota 16


terça-feira, março 27, 2007

Diálogo 2005

"O vinho a procurar diálogos, ilustrado por Luís Afonso, é o novo desafio da Niepoort em 2007.
Esta é a estreia de um vinho feito para o prazer da boa mesa que procura harmonia e o equilíbrio para todos os dias e não apenas para momentos especiais. Sem pretender ser o melhor vinho do mundo é um vinho que apetece beber, fresco, jovem e apelativo, um vinho com o carácter de um Douro que encanta pela sua simplicidade. No Diálogo a madeira é utilizada em pequena quantidade para que o vinho possa preservar toda a sua jovialidade"

Apesar de ser novidade em Portugal este tinto já teve experiências anteriores sob o nome Fabelhaft, dirigido para os mercados da Alemanha, Suiça e Áustria. Como o próprio texto acima indica, é um vinho para ser bebido despreocupadamente, e feito de forma mais simples. Com Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinto Cão, Tinta Amarela e Tinta Roriz de vinhas com idade até 40 anos, onde apenas 20% do lote estagia 12 meses em barricas de carvalho francês.

Com 13%Vol tem uma cor rubi acentuada, claramente cheia de juventude com reflexos púrpura.
No nariz, o primeiro impacto é interessante, pois parece que estamos perante um LBV, com muita especiaria, pimenta verde e menta, envolvido num manto de fruta fresca, com um floral de fundo, garantindo alguma harmonia num conjunto com algumas raspas de chocolate preto. Um nariz acima de tudo jovem e alegre, com um suporte mineral e fresco.

Na boca, o vinho deixa-se entrar sem perturbar, com taninos bem redondos, com boa acidez, muito fresco e elegante, com a fruta vermelha e uns toques vegetais a perfilarem num final harmonioso e sobretudo equilibrado. Juventude e equilíbrio, são as palavras de ordem deste diálogo. Um vinho que convida a ser bebido sem grandes preocupações, mas sempre num toque de escola britânica, com tudo no sítio e sem dar um toque em falso.

É talvez uma grande pedrada no charco (no bom sentido claro), onde a Niepoort, que sempre fez vinhos de patamar superior, mostra que afinal fazer um vinho que sirva para se beber a ver a bola ou a descansar ao fim da tarde é fácil.
Bebam e dialoguem.

Nota 15,5
Preço 7,5 euros
Produção 33.500 garrafas



Dirk Niepoort

Dirk Niepoort é sabido que é um dos grandes mentores do actual Douro, encabeçando a Niepoort e remando no projecto Douro Boys. Atento a tudo, dá atenção ao maior eno-jornalista mundial, como dá atenção a um simples apaixonado ( ou um crítico amador como gosto de dizer) como eu... O jornal Valor Económico fez uma excelente entrevista, que qualquer enófilo curioso certamente vai gostar de a ler. É muito curiosa a forma como Dirk vê o vinho, e a maneira como fala deles.



"Maluqueira" e muita auto-suficiência



"O herdeiro Dirk Niepoort não economiza em reconhecer seu talento na modernização da empresa centenária. Por Jorge Lucki, de São Paulo
Dirk Niepoort, que comanda a casa de vinho do Porto Niepoort, desde os anos 90: "Nunca fiz nada pensando nos críticos".

O mundo do vinho está repleto de personagens interessantes, uns extrovertidos, outros menos, uns mais refinados, outros meio toscos. São muitas as categorias em que cada um pode ser enquadrado -na verdade a lista é grande -, e é isso que torna o contato pessoal com qualquer um deles uma experiência sempre rica.
Vem daí, inclusive, um projeto que algum dia deve se materializar, com meu amigo chileno Patrício Tapia, editor do melhor guia de vinhos do Chile, o Descorchados e editor associado da influente e confiável publicação mensal americana Wine & Spirits, de reunir num livro as idiossincrasias de uma série dessas figuras, em particular, as mais cativantes e diferenciadas, para não dizer meio malucas, que existem espalhadas pelos quatro cantos do planeta.

Um dos nomes que foi sem dúvida lembrado, quando falamos de Portugal, foi o de Dirk van der Niepoort, que comanda desde meados da década de 90 a Niepoort, uma casa de Vinho do Porto que continua em família desde sua fundação em 1842. Representante da 5ª geração, o irrequieto Dirk, hoje com 42 anos, mudou os rumos da empresa e não parou de inventar novas maluquices, como ele mesmo disse várias vezes, a si se referindo, na entrevista exclusiva que deu para o Valor, durante sua passagem por São Paulo na semana passada. Dirk fala de suas crenças, assumindo em boa parte das vezes a paternidade delas, e de como seus vinhos evoluíram para chegar no grau de excelência que têm hoje, um fato que ele também não se inibe de enaltecer.

É preciso da mesma forma reconhecer que, afora tudo o que Dirk Niepoort promoveu dentro de sua própria vinícola, ele foi talvez o maior responsável pela criação e mola propulsora dos Douro Boys, grupo de cinco produtores assim informalmente chamado, que reúne, além da Niepoort, a Quinta do Vale Meão, a Quinta do Vale Dona Maria, a Quinta do Vallado e a Quinta do Crasto, nomes que a partir de um trabalho conjunto conseguiram grande projeção internacional.

Valor: Quais foram seus primeiro passos no vinho?
Dirk Niepoort: Foi curioso. Depois de ter feito o curso secundário em Portugal, eu fui estudar economia na Suíça numa escola particular e parte desse estudo envolvia um estágio. Por sorte ou coincidência, foi numa empresa de vinhos. Até aquela data eu não tinha interesse particular por vinho.

Valor: O seu objetivo não era estar ligado ao setor?
Niepoort: Era economia e talvez houvesse algum interesse por vinho maior do que o normal, mas não havia nenhuma pressão dos meus pais para eu vir a trabalhar na empresa.

Valor: E como foi o estágio?
Niepoort: Nesse estágio, na Mövenpick, tinha duas pessoas muito ligadas a vinho que não sei porque tiveram muito carinho comigo. Isso me deu um click e comecei a me interessar pelo assunto. Depois de acabarem os estudos fui para os Estados Unidos fazer um estágio numa vinícola, sem função especial.

Valor: Daí você voltou a Portugal?
Niepoort: Sim e comecei a trabalhar com meu pai em 1987 e meu interesse em vinhos de mesa era grande. Eu queria fazer e não consegui não fazer.

Valor: Até então a Niepoort não produzia nada de vinho de mesa.
Niepoort: A Niepoort era um negociante de Vinhos do Porto. Nós não tínhamos vinhas. Comprávamos o vinho pronto logo depois da colheita e depois envelhecíamos e negociávamos. Era como todas as casas de Vinho do Porto normalmente são. Quando eu cheguei, uma das primeiras coisas que fiz, quer dizer, meu pai é que me deixou fazer, foi comprar a Quinta de Nápoles. Em 88 compramos a Quinta do Carril, que fica ao lado, e depois fomos comprando e arrendando pequenas parcelas até chegar aos 43 hectares que temos hoje.

Valor: Não é tudo junto, não?
Niepoort: A Quinta de Nápoles junto com a do Carril tem 25 hectares plantados. Temos arrendado vinhas velhas no Vale do Mendiz e uma no Ferrão.

Valor: Isso foi o começo da mudança?
Niepoort: A grande diferença da Niepoort relativamente ao que era é que, primeiro somos proprietários de várias coisas. Nem o armazém onde estávamos e onde ainda estamos era nosso. A segunda alteração é que hoje vinificamos 95% do nosso Vinho do Porto e 100% do nosso vinho de mesa. A terceira é que o vinho de mesa não existia.

Valor: Quando você comprou as duas Quintas, de Nápoles e a do Carril, você já tinha pensado em utilizá-las para vinhos de mesa?
Niepoort: Não, e nós compramos a Quinta de Nápoles contra a minha vontade. Eu insistia que tínhamos de ter uma Quinta só que eu não queria aquela. Meu pai comprou por outras razões em que eu não via lógica. Mas aquela zona é, depois me dei conta, muito boa para vinhos de mesa. Isso me ajudou a criar algumas lógicas diferentes do que se pensava na época, que são vinhedos virados para o norte (bate menos sol, o que é, no Douro, no hemisfério norte, bom para esses vinhos).

Valor: Quando percebeu isso?
Niepoort: Isso nasceu em 1990, quando eu fiz um vinho da Quinta do Carril e esse vinho saiu muito melhor do que pensávamos. É o que eu chamei de Robustus. O engraçado é que meu pai não acreditava no começo. Ele achava que o vinho não prestava para nada e deu uma boa parte para o pessoal da empresa beber no dia a dia. Hoje em dia é talvez o vinho mais mítico de Portugal. Há alguns ingleses que acham que ele o melhor vinho já feito no país. A verdade é que o vinho hoje está muito bom.

Valor: O Robustus 90 nunca foi comercializado?
Niepoort: Nunca. Na época eu, chateado com o mundo, resolvi não mostra-lo a ninguém, e disse que era um vinho para meu filho que já havia nascido. Passou quatro anos em madeira, engarrafei e deixei quieto. Foram só umas 700 garrafas e a vantagem de não ter mostrado a ninguém é que ainda temos algumas garrafas.

Valor: E quando veio o Redoma?
Niepoort: No fundo o Redoma é um sucessor do Robustus. É baseado nas mesmas vinhas, tudo muito parecido. O Redoma foi nosso primeiro tinto de mesa comercialmente vendido.

Valor: Ambos eram então de vinhas velhas, com castas misturadas, como era praxe antigamente?
Niepoort: No alto plantamos 15 hectares de vinha nova que agora têm 20 anos. Mas o Redoma é essencialmente de vinhas velhas que têm castas misturadas.

Valor: Você gosta de vinhos de lote (corte de várias uvas e/ou vários vinhedos). Quando plantou novas parcelas fez uma mescla de variedades seguindo alguma lógica?
Niepoort: Fiz duas vinhas misturadas que eu escolhi, mas para ser sincero nem me lembro o que misturei. Peguei mudas de uma vinha muito velha que eu gostava muito e que hoje é nossa. Quer dizer é arrendada mas é como se fosse nossa. É a parcela que dá os melhores vinhos da Quinta de Nápoles.

Valor: O Redoma passou basicamente a década de 90 como único tinto de mesa de vocês. Até que veio o Batuta. E o Redoma branco?
Niepoort: O Batuta veio em 99. O Redoma branco veio em 95, de uma vinha de Celeiros com 70 anos de idade. É gozado que eu queria vinificar separadamente as três castas que lá existiam. O lavrador colheu as três separadas, mas me entregou todas juntas. Ou seja foi a primeira vez que tentei fazer um vinho por casta e não funcionou. Nunca mais tentei vinificar castas em separado.

"A fruta é banal. O frescor é a espinha dorsal de um vinho. Não se pode fazer um vinho com muito músculo se não tiver costas boas."


Valor: E mudou alguma coisa no Redoma branco?
Niepoort: Hoje não usamos mais essa vinha até porque na época eu achava que o Gouveio. Ela tem boa acidez, porém eu sou muito sensível a amargor. Hoje trabalhamos com muitas uvas de zonas diferentes, todas de mais altitude. Minha "maluqueira" é utilizar vinhedos mais altos para ter boa acidez.

Valor: Frescor é fundamental.
Niepoort: É e nos tintos também, cada vez mais. Há uma coisa muita importante a dizer. A Niepoort passou três fases no vinho de mesa. Primeiro foi começar a fazer. Não tínhamos condições nenhuma, não tinha dinheiro e meu pai também não ajudava muito. Era tudo feito como dava e ainda penso que é um milagre alguns vinhos serem tão bons nas condições em que eram produzidos. Depois em 99 disse a meu pai que precisaríamos investir. Contratamos, então, um enólogo e criamos condições mínimas - barricas melhores e novas e algumas cubas de fermentação porque as primeiras foram desenhadas por mim. Então a partir de 99, a Niepoort deu um passo muito grande e os vinhos melhoraram consideravelmente.

Valor: E a terceira fase?
Niepoort: Foi em 2004, quando um novo enólogo veio trabalhar conosco e independentemente da mudança, eu tomei uma atitude mais agressiva de não usar química. Em termos de vinhedo ainda utilizamos algum herbicida, mas é pouco e o objetivo é acabar. Quero que o Luís Seabra, nosso enólogo, tome a decisão. Acredito que de 2004 para cá a Niepoort deu dois ou três saltos qualitativos. Quando adotei essas atitudes achei que tinha assumido grandes riscos, que os vinhos poderiam se estragar. É muito irônico porque desde 2004 não temos nenhum problema com as fermentações, os vinhos são muito bons e mais equilibrados, mais sãos. A rigor é interferir menos no vinho. É acompanhá-lo e não fazê-lo. É deixar as uvas serem o que são e nós só temos que guia-las um pouco.

Valor: O divisor de águas foi então 2004?
Niepoort: Eu acho que a diferença entre um bom vinho e um grande vinho são pequenos detalhes que em si quase não são visíveis. Tecnicamente temos mais ou menos o que é preciso e penso que estamos trabalhando melhor e na direção certa.

Valor: No caso dos Vinhos do Porto este salto não é mais sentido nos Vintages, porque nos tawnies vocês já eram conceituados?
Niepoort: Em termos históricos não tenho dúvidas que a Niepoort é uma das melhores casas. Só que esse mundo era gerido pelos ingleses (a maioria das casas de Vinho do Porto eram dominadas por ingleses) e assim nós nunca fomos levados a sério. Talvez nos anos 80 não estivemos jogando bem, mas eu diria que a partir de 2000 voltamos a estar no nível dos melhores.

Valor: Você estendeu bastante a linha de mesa nos últimos anos. Você pode resumir?
Niepoort: Temos crescido muito. Em quantidade, nosso carro chefe é um vinho mais comercial que temos duplicado as vendas. No Brasil vai se chamar Diálogo. Antes da reviravolta (de 2004) ele tinha uma razão de ser. Achei que estava na hora de contrariar a lógica e fazer um vinho que não fosse quase preto, frutado, alcoólico. Que fosse simples, com frescor e não pesado, para dar prazer de beber e que tivesse a tipicidade da região. E está indo muito bem.

Valor: Voltando aos seus vinhos clássicos, tops de linha. Quando você sentiu necessidade de fazer o Batuta?
Niepoort: O Batuta deveria ter nascido em 95. Eu já tinha o vinho e eu gostava muito. Era para ser um tinto na linha do Robustus 90, em que deixei mais tempo em madeira. O enólogo que havíamos contratado não ligou muito para terminar ele, e acho que se estragou. Não é que estragou, mas era muita responsabilidade e o vinho não estava perfeito. Também tem a história meio absurda que não podíamos utilizar o nome Robustus. Foi meu pai que sugeriu o nome Batuta. Em todo caso, Robustus é uma palavra pesada que demonstra estrutura, peso, álcool e extração, bem na linha do que vi na Califórnia em 87. Com a idade eu iria evoluir e fazer vinhos mais finos. Mas eu não entendia de vinhos finos na época e não sabia como fazê-los. Quando começamos a pensar a sério em fazer o 99, eu já sabia algo, queria elegância e não um brutamontes. O Batuta é mais ou menos isso. Pretende ser mais refinado, mais polido. O Redoma, por outro lado, é o nosso vinho mais importante , representa melhor o Douro - é mais selvagem, autêntico.

Valor: Aí vem o xodó, o Charme. Como e quando você o concebeu?
Niepoort: Isso foi em 2000, quando numa prova às cegas me deram um vinho, que logo de cara achei que era um Rhône do norte, mas eu nunca havia visto um Syrah tão fino. Só poderia ser um Pinot Noir, mas com aquela estrutura só se fosse um vinho do Domaine de la Romanée Conti. Era um La Tâche 91. Algum tempo depois aconteceu a mesma coisa só que aí eu acertei, o mesmo acontecendo mais tarde, com um La Tâche 96. Eu me perguntei como era possível um vinho ter a potência, estrutura e taninos como eles têm e ao mesmo tempo terem essa fineza. Cheguei a conclusão que a razão era o trabalho que eles fazem com o engaço (eles não eliminam os engaços -- os galhinhos que seguram os bagos - como a maioria faz). Trabalhar com o engaço é complicado e eu estava habituado a fazer isso com os Vinhos do Porto, mas era bem diferente. Em 2000 fiz uma experiência e acho que exagerei, o mesmo acontecendo no ano seguinte. Em 2002 fiz o que eu achava do princípio ao fim , algo que fosse tão bom que pudesse engarrafar. E assim veio o 2002 e depois o 2004.

Valor: Com que castas?
Niepoort: São vinhas muito velhas do Vale do Mendiz, na zona do Pinhão. Tem Tinta Roriz e Touriga Franca mas com muitas outras. Mas ainda estou procurando outra vinhedo e outra casta. O segredo do Charme, em todo caso, é partir de vinhas muito velhas com produções muito pequenas.

Valor: O estilo que você busca hoje nos teus vinhos é privilegiar mais o frescor do que a fruta, não?
Niepoort: Eu não gosto de vinhos com fruta, eu gosto de vinhos frescos. É muito importante e a maior parte das pessoas não percebe a diferença. E ela é muito grande. A fruta é uma coisa banal e o frescor é essencial e difícil de conseguir. O frescor é a espinha dorsal de um vinho. Não se pode fazer um vinho com muito músculo se não tiver costas boas. O que segura nosso corpo é a espinha e a espinha é a acidez.

Valor: Foi com esse objetivo que você propôs fazer uma parceria com o Álvaro de Castro, da Quinta da Pellada, no Dão, e resultou no Dado?
Niepoort: É isso. Ainda hoje zombam de mim dizendo que sou maluco, mas tenho a certeza que as vinhas altas são o futuro. A idéia é juntar a espinha dorsal do Dão, cujos vinhos têm mais acidez, com os músculos do Douro.

Valor: Dizem que o Barca Velha chegou a fazer isso.
Niepoort: Eles dizem que não é verdade, mas meu pai até me disse o mesmo. Na verdade, o velhinho (Fernando Nicolau de Almeida, o mentor do Barca Velha), juntava os altos e os baixos e tinha razão.

Valor: Já que o assunto é parceria, você tem também com o Telmo Rodriguez, da Espanha.
Niepoort: O Telmo é uma pessoa que eu adoro e tenho muito respeito por ele. Fomos apresentado há 15 anos como sendo o maluco correspondente a mim na Espanha. Eu sabia que era uma parceria que iria acontecer cedo ou tarde, e agora está se realizando. Eu perguntei ao Telmo como ele queria fazer o vinho e ele respondeu que faríamos juntos. Eu disse para ele fazer como queria. Discute daqui, discute dali, e eu disse que ele fazia os vinhos sempre com luvas brancas, tudo direitinho, muito perfeito. Mas para ser sincero, eu lhe falei, "nos teus vinhos falta qualquer coisa. Esse qualquer coisa vou ser eu a dar". Não sei como, nem quando nem o que, mas primeiro eu precisava saber o que fazer. Não sei se ele achou muito engraçado, mas efetivamente fizemos o vinho como Telmo quis e devo confessar que aprendi muito com ele. Aprendi coisas que a gente sabe mas não faz. Só mesmo fazendo é que se percebe certas coisas

Valor: Isso te ajudou no que você chamou de nova fase da Niepoort a partir de 2004?
Niepoort: Sem dúvida que o Telmo ter aparecido nessa altura foi parte dessa revolução. Ele veio de certa forma ajudar a ter atitudes mais fundamentalistas no que eu mudei. Estou convencido que a partir de 2004 nossos vinhos estão duas ou três categorias acima. Em 2005 é tudo tão perfeito também devido ao que aprendi em 2004.

Valor: E o vinho com o Telmo, como ficou?
Niepoort: É um vinho feito no Douro e é do Douro. Vem de duas vinhas arrendadas do mesmo proprietário, mas teríamos de ter um controle maior sobre ela. Estamos sonhando com um vinhedo que siga uma escola biodinâmica.

Valor: O estilo mais elegante e fresco dos teus vinhos não segue bem o padrão internacional que os críticos influentes do mercado internacional tanto apreciam. Isso não te preocupa?
Niepoort: Não. Desisti. Tenho até sorte de que os críticos gostem dos nossos vinhos, mas eu nunca fiz nada pensando neles."

In Valor Económico em 27/03/2007

segunda-feira, março 26, 2007

Altas Quintas Reserva 2004

Ainda se lembram do Altas Quintas 2004?
Pois bem, agora chega a vez do Reserva.
Um senhor vinho que só de olhar para a forma como é feito, assusta. Paulo Laureano e João Lourenço optaram por fermentar as castas Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet em grandes balseiros de carvalho, e onde depois, e leiam bem, se fez uma maceração prolongada de mais de quatro meses. Depois de este perpétuo processo,o vinho passou para barricas novas de carvalho Francês e Americano durante 12 meses.

Com 14,5%Vol tem uma cor granada brilhante e de grande intensidade.
No nariz, profundo e impressionante, há uma panóplia de aromas, todos bem integrados e muito intensos, com uma parte floral muito fresca e elegante, amoras, framboesas, muito chocolate preto, terra molhada, casca de árvore, café, com um toque de baunilha e uma tosta bem presente trazem uma enorme complexidade e uma grande empatia para que o fiquemos a cheirar, sem nos preocuparmos a passar para o próximo passo.

Na boca, embora possante, o vinho é delicado e tem uma textura sedosa que nos camufla o palato, cheio de classe e cheio de requinte. Taninos excelentes, com uma estrutura de betão, bem suportada pela acidez e pela frescura perfumada que nos mostra, permitindo um final único, personalizado, longuíssimo e elegantissimo, com notas da barrica de baunilha e muito tabaco, mescladas com a fruta e o chocolate preto. O vinho tem um final de boca brutal, com um final quase interminável, todos os pontos da boca por onde passou ficam a aclamá-lo.

Grande vinho alentejano, e tendo em conta que é o primeiro reserva que se fez, é de bradar aos céus. Se há quem diga que o marketing desta empresa é fenomenal, eu digo que fenomenal é este vinho.

Nota 18
Preço 29 euros
Produção 6.600 garrafas

sexta-feira, março 23, 2007

Herdade do Portocarro 2003

Em 2006 nasceu mais uma nova marca, a Herdade do Portocarro, liderada por José Mota Capitão, juntamente com o enólogo Paulo Laureano. Para o mercado lançaram um primeiro tinto da colheita de 2003. A Herdade fica nas Terras do Sado, no Torrão, a paredes meias com o Oceano Atlântico.
O principal objectivo deste produtor é tentar transmitir para o vinho o terroir da sua herdade, aliando frescura e elegância.
Este tinto com o nome da Herdade, sure da junção de três castas, Aragonês, Alfrocheiro e Cabernet Sauvignon, que estagiaram em barricas de Carvalho Francês.

Com 13,5%Vol e uma cor rubi de média concentração evidenciando já uma ligeira evolução.
No nariz, aromático qb, o primeiro impacto é de muita fruta vermelha bem madura e notas florais, com ligeiros apontamentos de mel. Nota-se uma boa complexidade, com algumas notas de grafite, cravinho, bolacha e uma tosta muito elegante e envolvente, garantindo um aroma fresco e charmoso sem cair em tons muitos quentes.

Na boca, os 4 anos já se notam, pois o vinho entra com suavidade apesar de volumoso, com os taninos arredondados, embora que ainda com uma boa acidez, não deixando nunca o vinho ficar "mole". Fruta e chocolate fazem um bom par, integrados perfeitamente com as notas do estágio.O Cabernet, maduro, parece aqui muito bem integrado com as duas castas e garante complexidade na prova de boca, e quando assim é vale a pena pelo menos não notei os tais pimentos verdes). As especiarias e o café marcam o final de boca, de qualidade ainda que com persistência razoável.

É um vinho afinado, com uma boa complexidade aromática e que merece ser provado.
Para primeiro vinho está muito bem e promete!

Nota 16,5
Preço 12 euros
Produção 30.000 garrafas

segunda-feira, março 19, 2007

Malhadinha 2005

Nova incursão pela Herdade da Malhadinha Nova, ( já aqui se provou o Pequeno João 2005) provo agora o Malhadinha Branco 2005.

É um branco feito exclusivamente com Antão Vaz fermentado totalmente em barricas de Carvalho Francês e Americano ( 60% e 40%), com um posterior estágio de 8 meses.

Com13,5% e uma cor impressionante amarelo dourado de grande concentração.
No nariz com uma entrada tostada não esconde a passagem pela madeira que sofreu, lembrando pão caseiro torrado, cereal, conjugado com um aroma limpo a pera rocha madura, banana, pólen, mel e as evidentes notas abaunilhadas, tudo muito exuberante e alegre, num conjunto interessante e bem equilibrado. As notas derivadas da madeira notam-se mas estão perfeitamente ligadas com o vinho.

Na boca entra fresco, volumoso e com uma certa untuosidade. Com boa complexidade, dá uma prova muito interessante, irreverente, com o vinho a percorrer toda a boca e perfumando tudo com notas tropicais e deixando uma suavidade torrada, ainda que com a acidez algo espigada, e com a madeira sempre presente a tomar o lugar da fruta. O final é longo, mineral e com ligeira baunilha.
Como diz o Copo de 3 ( e bem), o vinho ainda pode esperar mais uns tempos para ser bebido. O nariz está muito aprumado e equilibrado, mas na boca ainda não está muito arrumado. Mais uns meses portanto e o vinho ganha ainda mais complexidade e concerteza que, com esta estrutura vai dar bom resultado. Este "parece-me" ser um vinho para 17(+) valores, no entanto e para já (Janeiro de 2007) fica com:


Nota 16,5
Preço 12 Euros
Produção 3500 garrafas

Montes Claros Reserva 2004

É o primeiro vinho da Adega Cooperativa de Borba que tem lugar no Vinho da Casa, apesar de os seus vinhos estarem disponíveis em muitos locais, e a preços bem simpáticos.

Este Montes Claros tinto, é feito com quatro castas, Trincadeira, Aragonês, Cabernet Sauvignon e Tinta Caiada que estagiam 12 meses em barricas de Carvalho Francês.

Com14%vol e uma cor granada de média concentração quase translúcida.
No nariz, o aroma é elegante e fresco, com notas de morangos, ameixas, groselhas, com alguma borracha, num estilo muito perfumado e afinado. O lado floral também aqui está presente, trazendo alguma complexidade aromática, onde o estágio da barrica está em segundo plano, com uma boa tosta bem casada no vinho.

Na boca, é fresco, tem uma acidez bem viva, dando alegria ao vinho, que enganosamente se mostra musculado e bem estruturado, ( a pouca concentração em nada o previa) com taninos com T grande, onde as notas da barrica, chocolate e a fruta fresca nos dão alguma suavidade neste estilo que tenta ser potente. O vinho mostra-se portanto muito equilibrado na boca, com um bom final, onde sobressai o fumo e as especiarias.
Um vinho muito interessante e curioso, com pouca extracção mas com grande volume de boca.
Elegante no nariz e aguerrido na boca.
Excelente relação qualidade-preço.

Nota 17
Preço 6 euros
Produção 120.000

terça-feira, março 13, 2007

Pontual Touriga e Trincadeira 2004

Depois de provado o Reserva 2004 ( aqui ) e o Syrah 2003 ( aqui ) é provado agora mais um vinho da Companhia de Vinhos do Alandroal.
Este é feito exclusivamente com duas castas plantadas em terrenos xistosos, Touriga Nacional e Trincadeira que estagiam em barricas de carvalho francês e americano durante 10 meses.

Com 14,5%Vol tem uma cor granada de média concentração.
No nariz, o estilo aromático vem no sentido do Syrah, no toque à frescura e finesse e longe dos quentes aromas tradicionais alentejanos. Com complexidade, muito floral, com notas típicas de violeta, fruta vermelha fresca, mentolados e um fundo mineral com a madeira muito bem a envolver todo o conjunto, com uma boa tosta e especiarias.

Na boca o vinho entra delicado, sem excessos, de médio porte, com os taninos finos e uma boa acidez. Aparece ao lado da fruta um ligeiro toque herbáceo, chocolate e torrados, com a madeira uma vez mais aqui em harmonia, com um bom final, ascendente, floral e com notas de café.
Um vinho muito elegante, harmonioso, sem muita extracção, com a parte floral das duas castas em destaque. Muito bem para o preço apresentado.

Nota 17
Preço 10 euros

segunda-feira, março 12, 2007

Muxagat 2005

Depois de provado o tinto, ( ver aqui ) vem agora para cima da mesa o branco.
É um vinho branco feito por Mateus Nicolau de Almeida, de vinhas que rondam os 40 anos e uma altitude média de 350 metros, com 90% de Rabigato e o restante de Gouveio, Códega e Viosinho, com 20% do lote a passar por barricas novas de carvalho francês durante 8 meses.

Com 13%Vol e uma cor amarelo palha com alguma concentração.
No nariz é muito fresco e incisivo, com um mineral intenso, limão e maracujá juntamente com um leve toque fumado. Rapidamente somos transportados logo para o Vale do Côa, curiosamente nesta altura das amendoeiras em flor, pois pode ser sugestão, mas o aroma a amendoas juntamente com as notas florais estão cá presentes. Tem um aroma muito afinado e de bom nível.

Na boca, fresco e de elevada acidez, bem equilibrada pelo bom volume de boca, mostra-nos que é um vinho branco para todo o ano, inclusivé os tempos mais frios. Perfumado q.b. na boca com notas frutadas e ligeiro vegetal fresco, com um final mineral de bom nível e persistente.
Pela mineralidade que apresenta e pela boa acidez, guardá-lo uns tempos em garrafeira não será uma hipótese descabida para ganhar um pouco mais de harmonia.
Um vinho branco muito bem feito.

Nota 16
Preço 8 euros
Produção 10.000 garrafas

O Copo de 3 também já provou este vinho. Vejam aqui.

Solar dos Loendros Cabernet Sauvignon 2003

Mais um vinho ribatejano e de Tomar em prova, desta feita um tinto monovarietal Cabernet Sauvignon da colheita de 2003 do Solar dos Loendros.
Às portas de Tomar e a circundar este solar moderno, estendem-se 30 hectares das castas brancas Malvasia, Fernão Pires e Chardonnay e as tintas Castelão, Touriga Nacional, Trincadeira e Cabernet Sauvignon.

Com 13%Vol, de cor granada e com mediana concentração, evidenciando já algum envelhecimento parecendo quase um tinto de Castelão na cor.
No nariz, os aromas iniciais cativam, com algum chocolate e fruto vermelho, mas com o arejamento surgem aromas a leite creme queimado, verdes, algum couro e o nosso bem conhecido pimento verde, ainda que um pouco enjoativo mas não em excesso.

Na boca, a primeira sensação é de rusticidade, com a acidez algo desequilibrada, pois pelo pouco corpo que apresenta, esta vem ao de cima, com notas de lagar, de engaço, muito vegetal, alguma fruta, lembrando-me de casca de maçã vermelha e ameixa. Os taninos estão bem redondos e o final de boca é aceitável, com notas de especiarias e algum tabaco.
Um vinho feito para o seu público, algo desajustado dos padrões modernos e que sinceramente, não faz o meu estilo.

Nota 13,5
Preço 4 euros