Pela primeira vez, aventurei-me em casa a provar vários vinhos em prova cega.
Juntei dois vinhos Alentejanos e dois vinhos do Douro, todos a preços abaixo dos 10 euros.
Foi este o único factor de comparação, pois os anos são diferentes.
Diverti-me bastante, os vinhos puxam por nós e os resultados foram curiosos. Já não é a primeira vez que provo em prova cega, mas com o moleskine e com a caneta na mão é a primeira.
Penso que daqui em diante, vou por vezes abrir 3 ou 4 garrafas e recorrer a este estilo de prova.
Apesar de saber quais os vinhos em prova, nunca os tinha provado anteriormente.
Os vinhos foram os seguintes:
Dona Maria 2004
Fagote 2004
Monte da Peceguina 2005
Quinta Seara D'Ordens 2003
Aqui ficam as minhas notas:
Dona Maria 2004
Tinto com 14,5%Vol. vindo das vinhas de Estremoz do produtor Júlio Tassara de Bastos com Aragonês (50%), Cabernet Sauvignon ( 20%), Alicante Bouschet (15%) e Syrah (15%), estagiados 6 meses em Carvalho Francês e Americano.
Cor jovem, granada e de média concentração.
No nariz, cativante, bastante fresco e mentolado, com uma grande dose floral. A envolvência tostada da madeira está muito bem integrada, com ligeiro fumado, onde a fruta, nada madura, lembras bagas silvestres juntamente com notas de chá verde e muitas especiarias. Um aroma muito sui generis, afinado e num fundo balsâmico.
Na boca, o vinho apesar de ter bom volume, ele é todo apoiado numa acidez elevada, que lhe traz grande frescura, muito perfumado, sempre com toques balsâmicos e achocolatados aqui e ali, com os taninos bem afinados, num final médio-longo, especiado e com notas de tabaco.
Um vinho muito bem feito, que dá prazer e que pede para ser bebido, quer no cativante aroma, quer no fresco e afinado paladar. Um pouco mais de complexidade e persistência e estava aqui um senhor vinho.
Nota 16
Preço 8 euros
Fagote 2004
Tinto com 13%Vol. da Companhia de Vinhos do Douro, nascido nos solos xistosos do Douro Superior, com Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Franca, que estagiam 12 meses em Carvalho Francês.
Com uma cor rubi jovem e de boa concentração.
No nariz, ainda algo fechado, com uma certa dose de mineralidade, que talvez o desmascare logo, com fruta fresca, ameixa, morangos e groselhas (xarope). Equilibrado e com alguma complexidade, as notas florais estão cá, notando-se também um pouco de borracha e chocolate amargo. A madeira está perfeitamente integrada no vinho, sem nunca se sobrepôr, com uma tosta ligeira a envolver. Um nariz fresco, elegante e muito mineral, fora das modas de bombas-fruta.
Na boca, de volume mediano, com taninos ainda algo secos e trazerem alguma austeridade, de acidez bem vincada, fresco e acima de tudo elegante. Fruto fresco muito discreto, num tom ligeiramente vegetal, com algumas notas da madeira, chocolate preto e algum fumado. Final de boca médio, com notas de especiarias e mineral.
Um vinho muito equilibrado, sem grandes exuberâncias, discreto e elegante. Mostra claramente que se pode apreciar bons vinhos sem exageros frutados.
Nota 16
Preço 8 euros
Monte da Peceguina 2005
Tinto com 14%Vol. das terras solarengas a sul de Beja da Herdade da Malhadinha Nova, com 40% de Aragonês, 20% de Alicante Bouschet, 15% de Touriga Nacional, e 10% de Alfrocheiro, estagiado em barricas novas de Carvalho Francês e Americano durante 6 meses.
Opaco, retinto e uma brilhante cor rubi.
No nariz, o aroma é intenso e nada envergonhado, com fruta preta e vermelha muito madura e muito densa( amoras, framboesas, cerejas...) quase que a saltar do copo de cada vez que o rodamos, juntamente com notas achocolatadas misturadas com tabaco. Um nariz quente e torrado, com a barrica bem presente , mas sem cair em aromas enjoativos, pois o floral e um leve vegetal(erva seca) trazem alguma frescura e complexidade aromática.
Na boca, entra denso e com vontade de mostrar toda a força, com a fruta uma vez mais a marcar o ponto, estilo compota, acidez suficiente, algum fumo, com a madeira ainda bem marcada no vinho. Os taninos estão muito bem afinados, com uma prova de boca muito envolvente, encorpada e acima de tudo equilibrada, com um final de média duração e algo doce e especiado. Se o final tivesse mais alguma complexidade estávamos perante um vinho muito bom. Ainda assim é um belo vinho. Mas sabendo que estamos abaixo dos 10 euros, não se pode pedir mais.
Nota 16,5
Preço 9 euros
Quinta Seara d'Ordens Col. Selec. 2003
Tinto com 13,5%Vol., vindo da zona de Poiares, da Soc. Agr. Quinta Seara D'Ordens, que produz também Vinho do Porto, e com um postfólio enorme. Feito com 40% de Touriga Franca, 30% de Touriga Nacional e de Tinta Roriz, com um estágio de 10 meses em Carvalho Francês e um estágio em garrafa também de 10 meses.
Cor rubi de média concentração.
No nariz o primeiro impacto é de um forte pendor vegetal, muita erva seca, com algum toque animal ( que ao longo da prova desaparece). A fruta está presente ainda que algo tímida, com fruta vermelha não muito madura misturada. O classicismo parece imperar no aroma, onde se descobrem algumas notas de couro misturadas com caramelo, onde a madeira aparece com notas mais modernas de baunilha, cacau e algum fumo.
Na boca, de corpo mediano, com acidez também mediana e equilibrada, onde os taninos estão presentes mas não perturbam. Boa profundidade, perfumado e com a madeira a envolver um paladar elegante, algo rústico, apoiado no vegetal, no fruto vermelho, com um final longo, com notas de fumo e cacau.
Um vinho clássico, bem feito e que consegue ser identificado com facilidade perante os outros 3 vinhos em prova, pela sua personalidade vincada. Um vinho com carácter e de certeza que muito capaz de ligar com pratos tradicionais ( enchidos, feijoadas, cozidos...).
Nota 15,5
Preço 6 euros
Foi uma prova interessante, onde o Dona Maria me surpreendeu, pois a boa acidez que tem nunca me fez pensar que fosse do Alentejo, e onde o Seara D'Ordens também se mostrou claramente diferente dos outros 3. Ao preço do Seara é uma excelente aposta para quem procura vinhos mais clássicos.
Apeteceu-me eleger um prémio a cada um:
Prémio mais exuberante - Monte da Peceguina
Prémio mais afinado - Fagote
Prémio mais clássico - Seara d'Ordens
Prémio mais nómada - Dona Maria