terça-feira, junho 19, 2007

Quinta de Porrais 2005

Francisco Olazábal, sobejamente conhecido pelo trabalho desenvolvido na Quinta do Vale Meão e na Quinta do Vallado, pegou em vinhas velhas plantadas perto de Murça, a mais de 600 metros de altitude, com as castas Códega do Larinho e Rabigato e Viosinho e fez este vinho branco Quinta de Porrais.

Com 12,5%Vol. e uma cor amarela esverdeada de média concentração.
No nariz, apesar de não muito exuberante, o que salta mais à vista é a forte mineralidade, numa frescura arrepiante, com muitas notas citrinas, folha de liomeiro, lima, ervas frescas, algumas flores brancas, onde um lado tropical, equilibra o nariz correcto mas não cativante à primeira. O aroma é claramente equilibrado, mas falta aqui qualquer coisa para nos convidar a bebê-lo com prazer.

Na boca, untuoso e de perfil fresco, com alguma doçura a dar-nos logo ideia de que a sua acidez natural das vinhas de altitude está um pouco escondida. Gordo, floral na boca e claramente prazenteiro, com um final de boca perfumado e mineral. Um vinho que se comporta ligeiramente melhor na boca que no nariz. A expectativa de serem vinhas trabalhadas por quem são, por terem mais de 60 anos e estarem plantadas em altitude, talvez me tenham deixado um pouco relutante em relação ao vinho, mas quando vi o preço que dei por ele, se calhar está aqui um bom vinho. Para 5 euros não se pode pedir muito mais.

Nota 15
Preço 5 euros

quarta-feira, junho 13, 2007

Malhadinha 2004

Depois de provado aqui no Vinho da Casa o Monte da Peceguina, Malhadinha branco e Pequeno João, é hora de provar a coqueluche da Herdade da Malhadinha Nova. É sempre daqueles vinhos que em qualquer prova todos falam bem e todos querem provar. Este produtor tem carisma e é sem dúvida inovador no toca as questões de mercado. Os rótulos são apenas um dos exemplos.

Esta vaquinha que vem no rótulo foi desenhada pela pequena Matilde.
É um tinto feito com um lote de Alicante Bouschet e Aragonês, ligeiramente temperado com um pouco de Cabernet Sauvignon tudo de vinhas plantadas em solos xistosos. Fermentado em pequenos lagares estagia depois 14 meses em carvalho Francês.

Com 14,5%Vol e uma densa cor granada, quase preta.
No nariz, o recorte aromático é extremamente maduro, cheio de fruto, chocolate preto, especiaria, com umas notas já recorrentes neste produtor de cravinho. Não se pense que é um aroma muito pesado, pois aparecem algumas notas florais e uns aromas químicos que acabam por trazer alguma frescura. Aroma complexo, com a evolução no copo, surgem os tostados, alguma erva seca e notas de leite creme queimado.

Na boca, pastoso e bem estruturado, bastante guloso, cheio de fruto preto e chocolate amargo num equilíbrio enorme. A acidez é moderada, com taninos finos e acetinados. A madeira surge plenamente integrada no vinho, com notas torradas mescladas com o fruto. Complexo na boca, num final longo, ascendente, perfumado e com notas de café e especiarias. Um vinho austero, gordo e corpulento, cheio de fruto, mas não enjoativo. Tem uma grande capacidade de evoluir no copo, ficando horas e horas a dar prazer.
Um alentejano cheio de carácter.

Nota 18
Produção 17200 garrafas

terça-feira, junho 12, 2007

Quinta da Pellada Touriga Nacional 2004

Provavelmente um dos Tourigas Nacionais mais respeitados do país, pois já Jancis Robinson no seu guia de vinhos portugueses atribuiu 18 valores ao 100% Touriga Nacional de 1996. Como sabemos, em 1996, um 18 para Portugal era um resultado excelente e quase impossível de atingir! Nessa altura poucos lá chegavam...
Este Dão de 2004 é feito exclusivamente com Touriga Nacional da Quinta da Pellada, onde faz a fermentação em inox e sofre depois um estágio de 14 meses em Carvalho Allier.

Com uns moderados 13%Vol o vinho mostra uma cor rubi com reflexos violetas brilhantes.
No nariz, complexo, o aroma é tal forma tão exuberante que até nos faz questionar como é possível isto num tinto. Estupidamente floral, as notas de alfazema, violetas, amoras, invadem o copo juntamente com um curioso aroma a sabão azul. A elegância e a finesse deste aroma também é impressionante, uma frescura balanceada pelas notas químicas e pelo fundo mineral completamente harmonizados com a tosta da madeira digna de um grande tinto . É um dos melhores vinhos que tenho provado na prova de nariz. Com alguma paciência continuam-se a descobrir aromas e aromas que nem vale a pena estar a enumerar.

Na boca, completamente enérgico e cheio de estrutura, mas sempre num tom afinado e elegante, pois a boa acidez e as notas de fruto fresco não deixam o vinho pesar. Taninos maduros e sedosos, o vinho mostra um bom nível, mas um pouco abaixo da excelência do nariz. O final é longo, fresco, floral e tostado, mas parece que se fica a pedir um pouco mais de profundidade. Será problema dos monocastas? Embora muito equilibrado e de bom nível, com mais boca tinhamos aqui um caso sério. Talvez o tempo lhe traga complexidade. Espera-se. Mas quem quiser perceber a energia deste nariz é melhor abri-lo já. Vale bem a pena. Grande Touriga Nacional. Grande Álvaro de Castro.

Nota 17,5

terça-feira, junho 05, 2007

Gravato 2004

Depois do original palhete aqui publicado, vem agora da região de Mêda, o tinto de 2004 da marca Gravato. Feito apenas com Touriga Nacional da Quinta dos Barreiros, sem passagem pela madeira, apenas com estágio de um ano em inox e 6 meses em garrafa.

Com 14%Vol apresenta um cor granada, jovem e com reflexos violáceos.
No nariz, algo fechado e austero, o aroma é bem vincado e característico desta casta. Muitos aromas florais, frutos silvestres envolvidos numa refrescante e atraente alfazema e menta. Este lado fresco e de bom nível é suportado pelo fundo balsâmico. Nariz bem harmonioso mas não muito complexo, apostando no equilíbrio.

Na boca, com uma acidez elevada, nota-se aqui a ausência de madeira, pois o vinho está bem nervoso, com os taninos ainda por limar, com muito fruto, especiarias e uma frescura de realçar. Esta parte nervosa faz-nos crer que poderá evoluir em garrafa, mas bebê-lo já é possível, pois dá prazer e tem muita garra. O final é de boa duração, apontando num só sentido, num final balsâmico e muito frutado. Um Touriga Nacional feito só em inox, cheio de força e com muita alegria. Talvez um pouco de madeira e o conjunto só tinha a ganhar. Bom exemplar da casta.

Nota 16
Preço 9 euros
Produção 12.000 garrafas

segunda-feira, junho 04, 2007

Apegadas Rosé 2006

Depois do lançamento o ano passado dos tintos colheita e reserva 2004, a Quinta das Apegadas vem agora para o mercado com uma nova aposta. É um Rosé das Terras Durienses, feito com Touriga Nacional e Touriga Franca.

Com 12%Vol. apresenta um brilhante cor rosada.
No nariz o impacto inicial remete-nos para um lado vegetal muito fresco, combinado com a fruta vermelha, morango, framboesas. Um aroma correcto e convidativo e acima de tudo muito alegre, sem enjoar, pois há aqui um fundo mineral inebriante que ajuda a vincar a frescura.

Na boca, algo directo e ligeirinho na boca, não compromete a sua função de aperitivo, com fruto fresco e algum perfume floral, A acidez é bem alta, onde as notas vegetais voltam a marcar presença. Final mineral e com ligeira doçura, que o torna guloso e extremamente apetecível. Com12%Vol não temos que nos preocupar muito... Um rosé bem feito, equilibrado, mas nada mais. A beber com os amigos ou a ver a bola. Obrigatóriamente bem fresco.

Nota 15
Preço 5 euros

quinta-feira, maio 31, 2007

7ª jornada da Prova à Quinta - Quinta da Bacalhôa 2003

Provar um vinho de um produtor que já produza vinhos há mais de 20 anos.
A Bacalhôa Vinhos de Portugal é nos dias de hoje, o resultado de um percurso iniciado em 1922, atrás conhecido por JP Vinhos. Em 1972, a pedido de Thomas Scoville, então dono da Quinta da Bacalhôa, António d’Avillez instalou uma vinha a fim de produzir um vinho com um encepamento semelhante ao que é usado em Bordéus, nomeadamente no Médoc. As castas escolhidas foram Cabernet Sauvignon e Merlot. O primeiro vinho com esta marca foi o da colheita de 1979, sendo o primeiro Cabernet Sauvignon de fama no país. Esta colheita é feita com Cabernet Sauvignon, temperado com Merlot. Estagia 11 meses em barricas novas de carvalho francês.



Com 13.5%Vol de cor granada, embora algo cansada no anel do copo.
No nariz, complexo e maduro, de perfil quente e austero, o aroma está claramente inundado de especiarias, hortelã, ameixa, mentolado refrescante(quase lembrando pasta dentífrica). Tudo muito exuberante e cativante em plena ligação com as notas tostadas, baunilha e chocolate preto. O lado vegetal ( pimentos verdes) que se podia esperar, não aparece aqui a perturbar.

Na boca, o vinho tem uma entrada com uma acidez elevada, com um volume de boca mediano, taninos delicados, forrando o palato com suavidade. Picante e achocolatado, com frutos secos, onde a fruta fresca não parece querer dar de si. Final de boca é de boa duração e claramente ascendente, personalizado e com uma lembrança de fumo e de madeira exótica.
Um belo vinho, diferente do que se produz por cá, embora este seja bem Português, da região de Setúbal. Claramente longe dos vinhos frutados e encorpados. Falta-lhe um pouco mais de harmonia na boca, pois a acidez parece estar um pouco deslocada. Com o tempo tudo se afinará certamente. Mais não seja temos aqui o lote bordalês.

Nota 17
Preço 13 euros

segunda-feira, maio 28, 2007

Altas Quintas Crescendo Rosé 2006

E os rosés não param de aparecer...
Do Alentejo, a marca Altas Quintas lança o Crescendo Rosé 2006, feito apenas com Aragonês e uma longuíssima maceração durante 5 meses em inox.

Com 13,5%Vol e uma cor salmão, com reflexos alaranjados.
No nariz, curioso e muito particular, o aroma faz-nos incrivelmente pensar que o vinho passou pela madeira, com um lado tostado bastante presente, café fresco, muito vegetal, chá, frutos secos, morango, cereja, associado a um perfume floral, cativante e sobretudo elegante. O nariz aponta claramente para um rosé austero e de perfil difícil.

Na boca, de acidez bem colocada, com algum corpo guloso, a entrada é seca e com toques vegetais, num final perfumado, com fruto vermelho e com uma persistência elegante e fresca.
Um rosé diferente, dando trabalho a percebê-lo, o que significa que não é indicado para a petiscada, mas sim para uma prova atenta. Aconselhadíssimo para quem gosta de vinhos sui generis. Cheio de personalidade.

Nota 15,5

quinta-feira, maio 24, 2007

Batuta 2004

"Batuta é um vinho de extremos, que deve sempre conciliar concentração com elegância, taninos presentes mas muito finos, frescura bastante para proporcionar um fim de boca muito longo. Tem como base a vinha do Carril, com mais de 70 anos virada a norte que permite maturações mais lentas e mais equilibradas. Esta vinha tem um aspecto muito curioso: os seus solos são atravessados por lençóis de água, tornando os terrenos menos secos do que é habitual na região o que permite maturações mais lentas, principalmente em anos quentes e secos. Estas vinhas raras no Douro têm produções diminutas, e o facto de ser um vinho que exige uma atenção e rigor excessivos em todas as fases, torna o processo complicado e dispendioso... O Batuta 2004 é um vinho extraordinário que resulta de uma vinificação delicada, de macerações levadas ao limite onde todos os detalhes são levados em conta, para que se obtenha um vinho complexo fino e elegante. O resultado é um vinho de grande equilíbrio, profundo e denso e ao mesmo tempo fresco e muito longo, só possível num ano equilibrado como foi 2004."

O Batuta é actualmente o vinho de topo da Niepoort, com uma produção considerável, tendo em conta a situação dos grandes Douro's. 12.000 garrafas que fazem os olhos de qualquer enófilo brilhar assim que se rasga a cápsula laranja. Lá dentro está um lote de castas durienses da vinha que tem cepas entre 60 e 120 anos. O estágio é feito durante 20 longos meses em barricas de Carvalho Francês, parte delas, novas.

É favor desligar os telemóveis e só aplaudir no fim.
1ª parte
Com 14%Vol. o vinho mostra uma cor granada brilhante de boa concentração, mas não preto.
No nariz, ultra-fino e complexo, o fruto vermelho, morango e framboesas misturam-se com violetas, envolvidos por raspas de cacau e toffee. A complexidade do vinho é assustadora, pois de cada vez que damos uma volta no copo e levamos o nariz, ele parece querer-nos mostrar algo mais. É como se fosse cada elemento de uma orquestra a solar na sua vez. Especiaria, noz moscada, mineralidade q.b. e algum veludo ( não sei muito bem explicar este aroma ), dá-nos a sensação de elegância extrema numa tosta dada pela barrica de grande nível.

2ª parte
Na boca, de entrada fresca e mineral, estruturado e perfeitamente geométrico, tudo está a toque de batuta dada pelo maestro. Os taninos, trazem ao concerto o lado da percussão, mas num tom pianíssimo, pois tal é a finesse. Acidez alta e perfeitamente ligada a um perfil balsâmico, trazendo o grupo dos metais ao palco. O grupo das madeiras entra no concerto com a barrica a mostrar-se uma vez mais em perfeita ligação com o vinho, dando uma harmonia brutal no conjunto tostado/mineral/floral. Café, especiarias e lembranças de seda. Final refrescante, longo e sedoso, com toda a orquestra em allegro.

3ª parte
É um vinho excelente, milimétrico, e que mostra uma vez mais a qualidade dos vinhos Niepoort. Pleno de elegância, luxo e requinte. Merece até um coral para o embelezar. O único contra é quando se vê o fundo da garrafa, maldito Requiem. Afinadíssimo, só Mozart conseguia melhor.
Bis Bis Bis!

Nota 18
Produção 12.000 garrafas


PS - Embora pareça contraditório, acabei por dar 18,5 ao Redoma 2004. Penso que a diferença baseia-se no prazer que ele nos dá. Sendo o Batuta seja mais afinado e requintado, o Redoma tem um perfil que me agrada mais. É mais carnudo, mais Douro.

segunda-feira, maio 21, 2007

Castello D'Alba Reserva 2005

Esta marca, disponível em vários supermercados, com rótulos dinâmicos e modernos, aposta num leque de vinhos a preços simpáticos, mas com uma qualidade e rigor acima da média. Para quem participa nas mostras de vinhos, certamente já reparou que o stand da VDS ( Vinhos do Douro Superior) é dos únicos ( senão o único) que leva um refrigerador para servir quer os brancos quer os tintos a uma temperatura correcta. Tantas e tantas vezes nos queixamos de provar os vinhos a 20 e muitos graus. Ora aqui está uma engenhoca que qualquer produtor devia e podia levar para os eventos. Vá lá... Não custa nada.

Este branco de 2005, já o bebi muitas vezes ao longo do ano, mas só agora lhe dei a devida atenção. E foi merecida. Feito quase exclusivamente com uma casta perdida, mas muito apreciada. São 95% de Códega do Larinho, de vinhas com mais de 60 anos plantadas entre 350 e 650 metros. O lote passa ainda 5 meses em Carvalho Francês e Americano com battonage.

Com 14%Vol. e uma cor amarelo dourado com ligeiros reflexos verdes.
No nariz, o aroma é muito limpo e elegante, com alguma exuberância liberta flores brancas, pólen, espargos, folha de limoeiro, fruto tropical, sempre enrolado numa tosta fina, com caramelo e ums ligeiríssima oxidação. Muito apelativo no perfil mineral, um nariz complexo, em plena forma e a mostrar harmonia no conjunto.

Na boca, austero e encorpado para um branco deste patamar, muito elegante e fresco, com alguma untuosidade e com uma acidez fantástica a contrabalançar. O ano que passou nota-se na boca, onde alguma complexidade aromática parece querer sobrepor-se à frescura de vinho branco de verão/outono que era o ano passado, pedindo mais atenção a quem o prova. Está um vinho muito equilibrado, com notas de fruto tropical, pão torrado e baunilha. Bom final de boca, persistente e perfumado. Talvez continuar a guardá-lo poderá ser uma hipótese plausível. Mas já se sabe, perde-se frescura, mas ganha-se complexidade.
Excelente para o preço. Parabéns.

Nota 16,5
Preço 4,50 Euros

JM Grande Escolha 2003

A Companhia de Vinhos do Douro, empresa bem conhecida pelos vinhos Fagote e Oboé, lançou recentemente uma nova marca, a marca JM. Talvez sejam as iniciais do seu produtor e enólogo José Miguel. É um vinho feito com todos os cuidados, com macerações prolongadas, onde as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Franca que fazem o lote estagiam 18 meses em barricas de carvalho francês.

Tem 14%Vol. e uma cor rubi carregada com ligeiros reflexos púrpura.
No nariz, de grande impacto inicial, com aromas muito curiosos, cheio de menta, leite creme queimado, algum tomate em compota, ameixa. O aroma é muito exuberante, cheio de força e sobretudo cativante. Com o tempo a fruta vai aparecendo muito madura, num perfil não muito enjoativo graças ao toque rústico do couro e ao fundo mineral refrescante. Os 18 meses da madeira estão aqui bem presentes, mas já perfeitamente integrados com notas abaunilhadas e uma tosta exótica.

Na boca o vinho mostra uma boa concentração, num estilo encorpado e austero. O perfil é ligeiramente rústico e frio, quase lembrando engaço, misturado com a modernidade da baunilha e a fruta bem madura, o que mostra alguma complexidade. Acidez correcta que lhe confere frescura, com os taninos ligeiramente secos, num final menos promissor do que se esperava. Um pouco mais de persistência não ficava nada mal. Ainda assim é um tinto de respeito, bastante cativente graças à sua exuberância e singularidade aromática e certamente com potencial de guarda.

Nota 17

quinta-feira, maio 17, 2007

Quinta Seara D'Ordens Reserva 2003

Já abordei este produtor por duas vezes, com o Quinta do Carqueijal 2004 e com o Quinta Seara D'Ordens Col.Sel. 2003. Subindo um pouco a gama, provei agora o Reserva. É um tinto feito com 40% de Tinta Roriz, 30% de Touriga Franca e 30% de Touriga Nacional. Feito em lagares tradicionais, o estágio é prolongado, com 6 meses em inox, 12 meses em barricas de carvalho francês e 12 meses em garrafa.

Com 13,5%Vol. o vinho mostra uma cor rubi de grande concentração.
No nariz, com uma entrada austera e bastante expressiva, com notas florais e herbáceas violetas, esteva e azeitona em perfeita ligação com a fruta silvestre, o chocolate preto e um mentolado refrescante. Este lado vegetal remete-nos também para um pouco de erva seca associada a uma tosta bem elegante. A madeira está aqui bem vincada, mas sem excesso, pois o vinho tem uma aroma fresco, graças ao fundo mineral que o suporta.

Na boca, a frescura é algo que vem logo ao de cima, com uma acidez bem alta, remetendo o vinho para um perfil mais rústico e sóbrio. Taninos ainda bem presentes e de boa nível, estruturado, com muita fruta fresca, mentol onde a madeira parece querer passar por cima. Este pequeno desconcerto, dá-nos a ideia de ainda estar em construção, o que mostra que pode ser vinho para durar. O final de boca é ligeiramente seco, com um toque fumado e lembranças de madeira exótica, com boa persistência. Para já está melhor no nariz do que na boca. O vinho dá a sensação de estar sempre fresco demais, ( provado a 16/17ºC) o que por um lado é bom, pois não enjoa de forma alguma, mas por outro lado mostra-se pouco persuasivo para se beber sozinho.

Claramente em fase ascendente.
Um vinho muito expressivo da dureza do Douro, extremamente aliciante à mesa, com pratos tradicionais. No meu caso acompanhou umas favas com entrecosto na perfeição. A ligação foi excelente.

Nota 16,5
Preço 11 euros
Produção 5.441 garrafas

segunda-feira, maio 14, 2007

PaPe 2005

Fui há duas semanas até Pinhanços, no sopé da Serra da Estrela. Entre caminhadas, passeatas a pé, e claro como qualquer bom português, quem vai à Serra tem que ir lá acima! Entrei por Seia e só saí em Gouveia! Foram mais de 100 kms percorridos com calma, tentando absorver tudo de bom que a Estrela tem para nos dar. Riachos, plantas bonitas, nascentes, pedacinhos de neve, lebres, raposas e até um pequeno ouriço se meteu à frente do meu bólide. Quando dei por mim já era de noite e ainda estava em Manteigas. Juro pela minha saúde que nunca mais farei a estrada de Manteigas para Gouveia de noite! É um autêntico massacre. Curvas e curvas sempre a subir e a descer com nuvens metediças a taparem-nos a visão sem nos avisar.

Bem mas falemos de vinhos.
Álvaro de Castro tem na aldeia de Pinhanços a Quinta de Saes, Quinta da Pellada e Quinta da Passarela. Como pessoa inovadora que é, decidiu há já algumas colheitas atrás arrancar com este vinho, oriundo das melhores vinhas da Passarela com as melhores da Pellada e chamou-lhe portanto PaPe. A vinificação é feita em conjunto, ao contrário por exemplo do Dado, onde os lotes só são misturados já na altura do estágio. Outra curiosidade neste Pape, é o lote das castas, 50% de Baga e 50% de Touriga Nacional. A Baga no Dão parece comportar-se de forma mais madura, enquanto que a Touriga Nacional, originária talvez desta região, mostra-se mais fina, mais floral e mais elegante aqui que em qualquer região portuguesa.
Após fermentação em inox, o lote estagia 14 meses em barricas de Carvalho Francês Allier.

Com 13,5%Vol o vinho tem uma concentrada cor rubi, cheia de vivacidade.
No nariz, alegremente floral, com violetas a inundarem o aroma, alfazema, esteva, fruto silvestre, balsâmico e um curioso aroma químico lembrando glicerina. Este aroma muito fresco está bastante harmonioso, super exuberante, onde a madeira de grande elegância se mostra, com uma tosta muito fina e notas de chocolate amargo.

Na boca, encorpado, austero e com muita garra mas sem pesar, pois a frescura balsâmica e a excelente acidez suportam toda esta juventude taninosa, onde os frutos silvestres voltam a aparecer, bem ligados a notas de baunilha e cedro. Final claramente ascendente de boa duração, com a tosta da madeira a vir ao de cima. Se houvesse aqui um pouco mais de complexidade, por troca da exuberância aromática, poderia estar aqui um grande vinho, ainda assim até pode vir a ser digno desse nome. Para já, está ainda um pouco monocórdico. De certeza que irá melhorar em garrafa. Aguarde-se e os momentos de prazer serão enormes.

Nota 17,5

Resta-me agradecer ao bom tempo que esteve enquanto estive na Serra, ao João Chêdas pelo convite que me fez e à simpatia da Maria Castro ( filha de Álvaro de Castro) pela excelente visita que nos proporcionou à Quinta da Pellada.

PS - Que belo turismo rural que dava a centenária Quinta da Pellada.

quinta-feira, maio 10, 2007

Sugestões

Esta semana é a Queima das Fitas do Porto. Já muito saltei, já muito bebi e já muito festejei.
Por agora, como não há aulas, vou até à praia da Amorosa, na Costa Verde, bem lá para cima para perto de Viana do Castelo. Caminhadas na praia, peixe fresquinho e água do mar a gelar os ossos. Para não vos deixar a seco, aqui vão algumas sugestões despreocupadas mas que de certo não vos deixarão desiludidos. Tudo abaixo dos 5 euros. Como vou para a praia e o tempo quente já espreita, falo só de brancos

Couteiro-Mor 2006
Foral de Melgaço 2006
Muralhas de Monção 2006
Casal da Coelheira Chardonnay 2005
Prova Régia Arinto 2005
Quinta de Saes Reserva 2005
Encosta do Sobral 2005
Solar de Merufe 2003 ( sim 2003)
Covela 2005
Casa de Santar 2006
Catarina 2006
Castello D'Alba Reserva 2005

Até Segunda!

segunda-feira, maio 07, 2007

2ª Prova Cega - Touriga Nacional 2003 e 2004

Como prometido, voltei a repetir o estilo de prova cega. Desta vez optei por vinhos iguais, mas de anos diferentes. Em prova esteve então o Quinta das Marias Reserva Touriga Nacional 2003 e 2004. Para evitar alguma precoce descoberta, muito embora eu não seja perito em avaliar a tonalidade dos vinhos, não comparei os vinhos na coloração.
A Quinta das Marias foi adquirida em 1991 por Peter Viktor Eckert, de origem helvética. Em Oliveira do Conde, perto de Carregal do Sal, a Quinta das Marias conta com oito hectares de vinha, situada entre as margens dos rios Dão e Mondego, no meio de colinas granito.
Os vinhos têm ambos 100% de Touriga Nacional, com estágio em Carvalho Francês (Allier) e Americano durante 12 meses, sendo que um terço das barricas são novas e o resto de segundo ano.

Quinta das Marias Reserva Touriga Nacional 2003
13,5%Vol.
Nariz bastante fechado, mas austero e com classe. Vai soltando por vezes um outro aroma, sempre apoiado numa elegância balsâmica, com perfil mineral. Aromas esses que lembram fruto preto, chocolate preto, esteva e alguma erva seca, com a madeira perfeitamente integrada e de bom nível, com baunilha e tabaco.

Na boca, o perfil elegante continua cá, com uma grande harmonia de conjunto, embora encorpado e com taninos bem presentes, a frescura e a mineralidade trazem classe e complexidade, pleno de notas especiadas e de chocolate negro, sem grandes doçuras. Acidez alta, com uma estrutura bem alicercada e ainda em fase de construção, pois os taninos estão cá e a arredondar. Final longo, elegante, ligeiramente seco, especiado e abaunilhado.
Uns tempos mais em cave não lhe farão nada mal, ainda que já esteja muito afinado, mas com já quatro anos e ainda com taninos desta nobreza, temos aqui um belo vinho.
Nota 16,5
Preço 13 euros
Produção 2300 garrafas

Quinta das Marias Reserva Touriga Nacional 2004
13,5%Vol.
No nariz o perfil austero e sóbrio impera, muito fino, barrica de grande qualidade a soltar um aroma envolvente e elegante. Ligeiro toque químico, fruto preto, amoras, menta, violeta, chocolate negro, fumo e grafite enchem o nariz com uma boa complexidade. Muito equilibrado e com a madeira perfeitamente integrada no vinho, embora mais presente que o 2003, mas também o aroma é mais exuberante.

Na boca, o estilo poderoso e concentrado, estruturado mas uma vez mais bem suportado por uma boa acidez, num perfil sedoso e suave, com os taninos finos sem marcar a prova. A fruta parece estar ainda em segundo plano, com a tosta da barrica a envolver todo o palato, num toque fumado e mineral. Final longo, mais comprido e complexo que o 2003, com erva seca e baunilha. Um verdadeiro relógio suíço feito por um suíço.
Curiosamente está mais pronto para beber que o 2003, pois os taninos são mais sedosos aqui, nota-se claramente uma evolução de uma colheita para a outra, onde a exuberância e a finesse aumentaram.
Nota 17,5
Preço 15 euros
Produção 1340 garrafas

Ambos os vinhos têm quantidades reduzidas, embora o preço não fuga muito à qualidade, aliás, estão aqui dois belos vinhos, numa excelente relação qualidade-preço, capazes de ombrear com muitos outros, e que podem proporcionar grandes momentos de prazer, principalmente para quem aprecia vinhos elegantes e finos.

quinta-feira, maio 03, 2007

Quinta D'Amares 2006

Voltando às iniciativas lançadas pela nossa comunidade de eno-blogs, a Prova à Quinta desta vez comandada pelo Pingus Vinicus do Blog Pingas No Copo consistia em provar um branco português monocasta. A minha escolha cai talvez na casta mais "barata". Será? Falo-vos do Loureiro que muitas vezes é trabalhado sozinho. Junto a Póvoa de Lanhoso, em Amares fica a Quinta de Amares.




Com 11%Vol. e uma cor muito ligeira, amarela com laivos esverdeados.
Nariz alegre, vivo, fresco, cheio de notas citrinas, limão, banana, maçã reineta e algum aroma típico a louro. O lado vegetal aparece aqui ligeiro bem casado com um aroma mais adocicado, lembrando rebuçado.

Na boca, pleno de juventude, acidez moderada para este tipo de casta, deixando o vinho ter algum corpo "à vista", com toques de fruto citrino, tropical. Algum açucar residual torna-o guloso e muito muito fácil de beber. Com 11%Vol, pode chegar a ser perigoso, pois a garrafa vai num instante. Pico muito muito ligeiro, num final ligeiramente doce mas sobretudo equilibrado.
Ao preço de venda é uma excelente RQP. Um bom Loureiro, a um passo dos melhores que temos.

Nota 15
Preço 2 euros

segunda-feira, abril 30, 2007

Grou 2004

Voltemos ao Alentejo na zona do Cabeção...
Já há algum tempo, provei o Grou 2 2004. Era um vinho irreverente no estilo (só Inox) e no carácter. Tenho agora para apresentar o Grou 2004. Topo de gama da Soc. Agr. Vale da Joana e é, como tenho dito por aí, um dos grandes vinhos alentejanos e que me enche por completo as medidas.

Predominante o Alicante Bouschet (70%), Trincadeira (12%), Aragonês (12%) e Touriga Nacional (6%), o vinho estagiou depois em barricas novas de Carvalho Francês durante 8 meses.

Com 14,5%Vol apresenta uma grande concentração na brilhante cor granada.
No nariz, muito austero, cheio de notas silvestres, com uma frescura impressionante, com muita menta e eucalipto, num perfil sério e com grande complexidade. A madeira está aqui plenamente integrada, com algum fumo, tabaco, especiarias em conjunto. Um aroma fino e muito refrescante, que foge um pouco aos padrões mais quentes da planície alentejana.

Na boca, com grande estrutura, a classe volta a imperar, com uma entrada acetinada, taninos de luxo, muito fruto silvestre, perfume floral, toque mentolado refrescante, novamente com a madeira bem casada, com notas de frutos secos e uma grande profundidade. A acidez é surpreendente, com um volume de boca geométricamente perfeito, conseguindo preencher todas as arestas. Forte, complexo, e fresco, num final longo, com chocolate e notas da madeira de grande nível.
Um belo vinho, viciante (sou suspeito, pois gostei mesmo muito dele), com um perfil muito próprio, embora seja muito concentrado não é uma bomba de fruta, o que lhe traz o tal apelido de vinho complexo. Potente e audaz, capaz quem sabe de se evoluir ainda mais em garrafa.
Ah, o enólogo é o Anselmo Mendes, que faz pela primeira vez um Alentejano. E que bem que o fez!

Nota 18
Produção 8.000 garrafas

terça-feira, abril 24, 2007

Um ano

Pois é... Já faz um ano desde o 1º post no Vinho da Casa. Um para mim, trinta e três para a liberdade. Não faço a mínima ideia se este blog teria lugar nos tempos escuros e deprimentes da nossa ditadura, pois já nasci em plena liberdade. Nunca experimentei a ditadura, mas também não faço tenções para isso.

Ao longo deste ano muito aprendi, muito li, muito ouvi, e claro, muito provei. Tive oportunidade de conhecer alguns produtores, participar em muitas provas, participar em eventos vínicos conhecer outros malucos como eu que dedicam um blog ao Vinho e conhecer sobretudo muitos enófilos perdidos na maré...
Foi um ano muito intenso, e que me obrigou a levar isto com mais seriedade do que a que eu estava à espera. Sou um puro amador, mas sinto que este espaço que criei me abriu oportunidades para melhor aprender e para me esforçar por isso, pois mais não seja com um blog estou exposto, logo aberto a críticas. Durante estes 365 dias tive cerca de 31.500 visitas e quase 19.000 visitantes. Pode ser pouco, eu sei, mas para mim é um número que me assombra. São cerca de 85 visitas diárias ao meu blog. A todos eles e por todos eles o muito obrigado por terem feito com que este blog tivesse andado para a frente, pois para aqueles que me conhecem melhor sabem que só funciono sobre pressão. Continuem-me a pressionar para ver se aprendo um pouco mais a cada dia que passa.

Como espaço pessoal de crítica e prova de vinhos ( é assim que defino este blog), nada melhor que brindar o 1º aniversário com dois excelentes vinhos. Um deles, feito com lotes de colheitas ainda no tempo do nosso (infelizmente) imortal ditador. Falo-vos dum Porto 40 anos de grande nível, engarrafado em 2000 para a celebração do milénio. O outro, um dos grandes vintages do século passado, pois ainda agora nesta edição de abril da Revista de Vinhos foi a estrela da prova no painel de vintages da mítica(?) colheita de 1994. Curiosamente este dois vinhos são a 99º e a 100º nota de prova publicada. Espero aumentar o número de notas de prova, o que vai ser difícil, pois estou a terminar a minha licenciatura e a vida de estudante é difícil. Prometo no entanto, que não baixarei de duas notas de prova por semana.


Um grande bem haja para todos os que seguem o meu projecto, e viva a liberdade!


Sandeman 40 anos
Coloração ambar com reflexos castanho-avermelhados.
No nariz, mostra-se exuberante e hiper-complexo, repletos de aromas profundos com uma limpeza enorme, madeira molhada, funcho, canela,charuto, frutos secos em grande abundância, amêndoas, nozes, notas licorosas. Tudo muito equilibrado e com um nível impressionante, um vinho que nos prende ao copo a nos deixa preplexo a cheirá-lo tentando perceber como é possível. São poucos os 40 anos que provei, mas este aroma é inexplicável e senhor de uma classe única.

Na boca, extremamente melado, com uma acidez muito equilibrada com o açucar, trazendo uma sensação de harmonia ímpar, suave e fresco, cheio de complexidade, deixando notas de geleia e muita especiaria, num final ascendente e interminável. O palato fica inundado de aromas e de seda seguramente bem mais de um minuto.
Um vinho único e que provoca sensações inexplicáveis. Por muito que tente, não consigo escrever o que senti.
Nota 19

Graham's Vintage 1994
De cor rubi, ainda com uma boa densidade, com ligeiros reflexos vermelho escuro no anel.
No nariz, sizudo e sem se querer mostrar, muito austero e senhor de si, a pouco e pouco mostra uma extrema complexidade aromática, com fruta preta muito madura, erva seca, especiarias e um perfil vegetal de fundo ao lado de um traço balsâmico e floral. Mostra-se claramente narcisista e irritado por o termos acordado.

Na boca, a mesma sensação se verifica, com extrema potência e estrutura, carregado de frutos pretos, num perfil não muito guloso, algo seco, com taninos de grande classe e cheios de potencial, mostrando que ainda está aqui para as curvas e disposto a proporcionar grandes alegrias a quem o provar no seu auge. Embora não tenha obviamente capacidade para prever quando estará no seu apogeu, esta altura não é certamente e ainda não passou. Final longo, fresco, com clara predominância no chocolate preto misturado com fruto preto e ligeira especiaria.
Deu-me muito prazer em prová-lo, mas deu sobretudo para ter noção do que é um Vintage "fechado para obras". Segundo diz a Revista de Vinhos, e ainda bem que o diz, é um Vintage para guardar.
Nota 18,5

As notas são meramente indicativas do prazer que me deu, e daquilo que eu acho que valem, ainda assim não tenho qualquer pudor em assumir o que escrevo ( viva a liberdade de expressão camaradas)... Também é verdade que não tenho "estaleca" para avaliar Vintages ou Tawny's deste nível, já nos tintos e brancos é o que é. Talvez para o ano, ou para o próximo quem sabe!

Obrigado a todos vós mais uma vez...

25 de Abril Sempre
Como diz um dos meus compositores portugueses preferidos:
APRENDE A NADAR COMPANHEIRO...
QUE A MARÉ SE VAI LEVANTAR...
QUE A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR AQUI...

segunda-feira, abril 23, 2007

Odisseia Touriga Nacional 2004

Jean-Hugues Gros, enólogo francês, que durante muitos anos deu apoio enológico a várias marcas de vinhos do Douro. Em 2004, decidiu arrancar com um projecto seu, trabalhando as vinhas do Vale do Távora, e lançando para o mercado a marca Odisseia. Conseguiu encher 8.000 garrafas nesse ano, mas foi na casta Touriga Nacional que Jean-Hugues se fixou e fez um mono-varietal de grande nível, um extreme que deu apenas para encher 2.000 garrrafas.
A Touriga Nacional foi feita em tradicionais lagares de granito, onde depois passou para o Carvalho Francês, sendo apenas 40% de barricas novas.

Com 14%Vol. o vinho mostra uma coloração rubi muito densa, quase opaca e com grande concentração.

No nariz, o aroma é impressionante, austero e muito firme, com muitas notas florais típicas da TN, violetas, um ligeiro toque químico e uma clara presença de erva seca e de vegetação duriense, lembrando uma tarde quente de início de verão. Cheio de complexidade, o rosmaninho e a esteva misturam-se com a fruta de compota, toques ligeiros da barrica, com uma tosta ligeira e notas de chocolate, tudo muito extraído e muito vivo.

Na boca, o nome Odisseia começa-se a entender, tudo aqui é bruto, tudo é violento, um vinho pastoso, de grande concentração, estilo after-eight, com uma acidez moderada que lhe garante o suporte para tal arcaboiço, tornando-o num vinho fresco, ainda que carnudo. Os taninos são de grande qualidade, ainda que ligeiramente secos, mostrando que precisa ainda de calma para ser bebido. A madeira está muito bem integrada, com café e tabaco seco, com um final muito compotado, de grande comprimento e cheio de complexidade. A harmonia de conjunto consegue fazer com que um vinho bruto se torne elegante e atraente.

Bebê-lo é uma autêntica Odisseia, pois a força e a super-concentração que apresenta não é para qualquer um. Força bruta elegante, assim o gostei de definir. Um belo exemplar da Touriga Nacional a beber já para quem for aventureiro. A um preço excelente. Belo vinho. Se os gregos soubessem o que por cá se faz...

Nota 18
Preço 22 euros
Produção 2.000 garrafas

domingo, abril 22, 2007

LBV 2001 e Colheita 1994 Niepoort

Mais uma incursão na casa Niepoort, desta vez para aquilo que a tornou mundialmente conhecida, os Porto's, principalmente os Colheita, pois esta casa no séc XIX e XX era mais premiada pelos Tawny's datados do que pelos Vintage ( já para não falar nos Garrafeira, aqueles demijons de quase 10 litros que ficam esquecidos ali nas caves da íngreme Rua Serpa Pinto).

Começando pelo Colheita 1994, é um Tawny de uma só colheita, oriundo das vinhas do Vale do Pinhão e do Ferrão, com um estágio mínimo de 7 anos em pequenos barris velhos. Este Colheita foi engarrafado em 2005, tendo portanto cerca de 11 anos em contacto com a madeira.

Colheita 1994
Como manda a Lei tem 20%Vol.
A coloração essa é ambâr ainda com laivos avermelhados e ligeiro rebordo alaranjado.

No nariz, o aroma é todo ele superlativo, com nuances de frutos secos, com especial destaque para a amêndoa, muita canela, figos secos, bolo e geleia. Muito equilibrado e profundo, o perfume não cansa, pois a presença da madeira está em perfeita harmonia com a frescura da casca de laranja.

Na boca, com uma entrada típica de um Tawny, fresco, gorduroso e com um aveludado. Largo e harmonioso, pleno de elegância com o açucar residual a não cansar, com uma acidez fantástica, a mostrar que está em perfeitas condições quer de ser bebido, quer de ficar em garrafa a ganhar a tal complexidade de "garrafa". (Perdoem-me o pleonasmo) O final de boca é longo, melado, especiado e com notas de citrinos.
Nota 17


Mudando claramente de estilo, vamos para o irmão mais novo do Vintage, onde o estágio é feito em barricas grandes, para o vinho não ter tanto contacto com a madeira, e engarrafado 5 anos depois ( 2006). As castas são misturadas de vinhas com mais de 70 anos da zona do Vale do Pinhão, do Ferrão e da Vinha da Pisca.

LBV 2001
Também com 20%Vol. apresenta uma cor rubi de grande concentração.

No nariz, o estilo austero e jovem é impossível de se esconder, com muito nervo e até algo fechado, cheio de notas químicas, violetas, muito fruto, amoras, cerejas, ameixa preta. Um aroma claramente cheio de força mas já muito equilibrado, onde raspas de chocolate preto se fundem com pimentas.

Na boca, rico e pastoso, ( o estilo unfiltered talvez venha aqui ao de cima) com taninos bem aguerridos, com vontade de explodir na boca. O perfil "bruto" é plenamente contrabalançado com a finesse da fruta preta, com a riqueza do chocolate preto e com uma boa acidez que traz elegância e frescura. O final é uma vez mais muito dinâmico, longo e picante, cheio de notas especiadas.
Nota 16,5


Dois vinhos diferentes, quer no conceito quer no efeito. O Colheita é um vinho delicado, muito harmonioso e que quase que nos puxa para ficarmos apenas a cheirá-lo, pois é perfeitamente possível andar à pesca de aromas aqui e ali. O LBV é um estilo muito austero e com vontade de dar asas à liberdade culinária, podendo mesmo servir de fiel companheiro para muitos pratos, como sugere a própria Niepoort com um steak au poivre.

quinta-feira, abril 19, 2007

Gravato Palhete 2004

"Passados muitos anos, eis que surge de novo o "Vinho da Mêda", que foi outrora tão cobiçado no Porto e seus arredores. Este vinho era sujeito a um grande controle devido às tentativas de contrafacção que acabaram por surgir e, de certo modo acabaram com a imagem que tinha o "Vinho da Mêda".
Com o decréscimo da procura, os vitivinicultores da Mêda replantaram as suas vinhas com uvas mais rentáveis como são as Tourigas Nacional e Franca, ou Tinta Roriz o que levou ao total desaparecimento do "Vinho da Mêda".
Hoje em dia poucos são os que se lembram do Vinho da Mêda também conhecido como Palhete da Mêda ou Palheto da Mêda, mas os que se lembram recordam com saudade o tão afamado vinho e anseiam por uma oportunidade para partir numa viagem em senda dos sabores do passado. Os mais jovens, que em grande parte desconhecem o vinho aproveitam e agradecem a possibilidade que lhes é dada para provar um vinho diferente."

Pois bem, é a primeira vez que provo um palhete. É um vinho feito em inox, com uvas de castas tintas e uma percentagem de uvas de castas brancas. Este Gravato da Beira Interior tem Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Rufete e Rabigato, tudo de vinhas com mais de 50 anos.

Com 13,5%Vol apresenta uma brilhante e delgada cor rubi.
Provado a 11ºC deixando o vinho evoluir no copo.
No nariz, cativante e bastante aromático, a fruta vermelha, ameixas, morangos, cerejas, estão em sintonia com um lado vegetal e mentolado muito fresco. Algumas notas de borracha e de algumas flores trazem um nariz equilibrado e correcto.

Na boca, algo directo a uma temperatura baixa, com a acidez e a frescura ( talvez do Rabigato) a marcarem a prova, com fruta muito fresca num toque mais rústico e lembrando engaço, num final com boa duração ainda que bastante simples. Com o evoluir da temperatura, as notas florais aparecem, assim como algum químico, o vinho mostra-se mais estruturado, perfumado mas sem pesar pois a acidez não arreda pé, nunca caíndo em grandes doçuras.
Um vinho sui generis pela sua essência, algo démodé até, ainda que muito interessante, pois estar a apreciá-lo a várias temperaturas pode ser um bom exercício didático.

Nota 14
Preço 5 euros
Produção 6700 garrafas